Os amigos

A amizade surge como um valor essencial nas nossas vidas. Os amigos ajudam não só no equilíbrio emocional, mas também na saúde física e na construção de uma sociedade mais humana. Furtado Fernandes convida-nos a redescobrir o valor dos amigos como presença transformadora e caminho de esperança.

Como diz o aforismo “os amigos são para as ocasiões”. Verdadeiramente é quando, quaisquer que sejam as razões, formos confrontados com a adversidade que saberemos quais são os nossos amigos.

Cultivar a amizade não é fácil. Francesco Alberoni, em A Amizade, questiona-se, mesmo, se na sociedade atual, ainda pode prevalecer a amizade. Numa primeira observação parece que não. Assim acontece quando o mundo dos negócios for dominado pela especulação e a política pela luta desenfreada pelo poder para a satisfação de interesses particulares.

Não obstante estes escolhos, como sabemos, os amigos são cruciais para o nosso equilíbrio socioemocional.

Há um provérbio que diz, muito a propósito, que “viver sem amigos é morrer sem testemunhas”.

Neste sentido, António Lobo Antunes, na Revista Visão, afirmou que “os amigos não morrem, andam por aí. Entram por nós dentro quando menos se espera. Desarrumam o passado, o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram”.

Quando o individualismo pontifica, como adverte Noreena Hertz, no Jornal Expresso, “a nossa saúde mental não é a única coisa em jogo, embora a solidão esteja associada a maiores taxas de ansiedade, depressão e suicídio. A solidão também prejudica a nossa saúde física. Desenhados para estarmos ligados, os nossos corpos entram em estado de alerta elevado quando nos sentimos solitários, as hormonas de stress correm pelas nossas veias e o nosso ritmo cardíaco e a pressão arterial sobem”.

D. José Tolentino de Mendonça, em Nenhum Caminho será Longo, salienta que os amigos alargam a nossa vida, “conspiram para que se torne luminosa e autêntica, oferecem-lhe leveza e profundidade, temperam-na com o humor, insistem que ela é feita de futuro. Os amigos testemunham ao nosso coração que há sempre caminho, e que nenhum caminho será demasiado longo”.

O desenvolvimento de uma amizade é um processo, alimenta-se de atitudes e comportamentos que consolidam a confiança.

Sem pretendermos ser exaustivos, apresentamos algumas sugestões:

  • Fazer perguntas que revelem genuíno interesse relativas à família, à saúde, à atividade profissional, ao envolvimento social, aos objetivos, aos sucessos, às dificuldades;
  • Não começar a dar conselhos sem, primeiro, perceber quais são as necessidades e saber se há interesse em ouvi-los;
  • Praticar a escuta ativa, o que implica não interromper e depois pedir as clarificações necessárias para o cabal entendimento dos assuntos apresentados;
  • Disponibilizar-se para ajudar sempre que as circunstâncias o requeiram;
  • Aceitar que o outro é diferente, praticar o diálogo, evitar o proselitismo;
  • Fale do que sente e não apenas do que faz, a amizade é uma relação pessoal;
  • Seja sincero, não se “esconda” atrás dos seus mecanismos de defesa.

Num plano mais geral, a propósito de diálogo e de amizade social, é elucidativo o que nos ensina o Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti:

“O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos. A partir da própria identidade, o outro tem algo para dar, e é desejável que aprofunde e exponha a sua posição para que o debate público seja ainda mais completo. Sem dúvida, quando uma pessoa ou um grupo é coerente com o que pensa, adere firmemente a valores e convicções e desenvolve um pensamento, isto irá de uma maneira ou outra beneficiar a sociedade, mas só se verifica realmente na medida em que o referido desenvolvimento se realizar em diálogo e na abertura aos outros”.

Numa altura em que, como também nos disse o Papa Francisco, vivemos a “terceira guerra mundial aos bocados”, estes ensinamentos são, infelizmente, cada vez mais atuais!

As notícias das pessoas desalojadas, das pessoas que fogem, das pessoas mortas, das pessoas feridas, de tantos soldados caídos de um lado e do outro, são notícias de morte. Peçamos ao Senhor da vida que nos liberte desta morte de guerra. Com a guerra, perde-se tudo, tudo. Não há vitória numa guerra: tudo é derrota” (Papa Francisco, Contra a Guerra, A Coragem de Construir a Paz).


Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de maio de 2026 do Jornal da Família

Foto: Freepick

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