A Palavra de Deus nem sempre é acessível às crianças. Para ser mais sincero, até ousaria dizer que ela é “muito pouco” acessível. E já nem falo do Antigo Testamento, à exceção, porventura, dos salmos, pois os há, “graças a Deus”, muito profundos e claros (como eu gosto do Salmo 27, que diz a certa altura “O Senhor é protetor da minha vida: de quem hei de ter medo? (…) Confia no Senhor, sê forte. Tem coragem e confia no Senhor.”!).
Como dar a volta a esta situação?
A Joana, de 4 anos, e o Francisco, de 5 e tal, por enquanto vão achando graça a certas ousadias do avô. Estando mais perto dele do que os outros três primos, têm muitas oportunidades para o aturar. Calha, às vezes, ser logo de manhã. Enquanto tomam o pequeno-almoço, lembrei-me de aproveitar para rezar com eles a liturgia do dia. Ora os 50 dias após o domingo de Páscoa, através dos Atos dos Apóstolos, foram férteis em nomes “esquisitos”: Barsabás, Silas, Timóteo, Barnabé, Nicodemos, Tito, Teófilo, Galião, Priscila, Áquila, Sóstenes, Apolo, Festo, Félix, Agripa, Berenice… Para não falar em nomes de localidades, como Samotrácia, Antioquia, Tiatira, Frígia, Panfília, Acaia, ou em povos antigos como Partos, Medos, Elamitas…
É claro que esses nomes despertaram a sua curiosidade. E porque não cantá-los com a música dos “Parabéns a você”? Que ideia fabulosa!!! Ora vejam:
Sós, sós, sós, sós-te-nes, Sós…
Barnabé, bé, bé, bé, Barnabé, …
Ti, ti, ti, ti-mó-teo, Ti…
Até a Joana começou a alinhar na brincadeira… Mas o Francisco, notando que Paulo aparecia sempre em todas as “histórias” (como eles dizem), não o esqueceu, apesar de ser um nome muito comum:
Pau, pau, pau, pau, pau-lo, Pau…
O sucesso foi tão grande que o Francisco, quando eu pareço esquecido, lá me avisa: “Ó avô, hoje não contas uma história” (ou “hoje não rezas”)?
A dada altura, quando o pai estava no estrangeiro, pergunto eu à Joana em que cidade é que ele se encontrava. Resposta pronta: “Em Antioquia” (mentira!).
Os Atos acabaram com o Pentecostes. Voltámos a ter leituras do Deuteronómio, das Crónicas, dos Reis, dos Profetas. Mas a “brincadeira” não acabou… Querem ver mais um exemplo, perante nomes tão estranhos como Atalia, Nabot, Acab, Jezabel, Ocozias, Josebá, Joiadá, Joás, Matã, Jorão, Josebá?
Joia, dá, dá, dá, dá, Joia…
E perante o “Oco, co, co, co-zias, Oco…” (como eles se riram! – aliás muito parecido com o “Nico, co, co, de-mos, Nico…”, que só não referi há bocado por “vergonha”…!), salvou-nos mesmo o rei David:
Da, da, da, Da-vid(e), Da…
Ó meu Deus, como Nosso Senhor Jesus Cristo (e Paulo e Barnabé e Joiadá, etc.) se deve rir às gargalhadas com estas brincadeiras!
É claro que a Joana e o Francisco pouco veem para além destes nomes esquisitos. Mas a Palavra de Deus vai penetrando misteriosamente nos seus corações. E há de frutificar, não sei como, nem sei quando – nem me compete a mim sabê-lo. A mim, a nós, compete apenas semear, quiçá de forma criativa e com “graça”.
“Graças” a Deus.
Boas férias, se possível, com gestos, atitudes, palavras e Palavras divertidas – e com sentido…
Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de julho de 2026 do Jornal da Família
Foto: Magnific





