“Após o namoro (estado nascente) vem a etapa do amor «institucionalizado». Há quem suponha, frivolamente, que o matrimonio apaga a paixão e torna o amor rotineiro. (…). Não se tem prestado suficiente atenção à fenomenologia e dinâmica passional do amor.
E a que é que se deve essa permanência do amor? No verdadeiro amor o que mais releva é o ser. Pouco importa que mude a aparência física; ama-se o substancial e não tanto o acidental; quem está enamorado continua a descobrir a beleza em dimensões inéditas, novas, da pessoa amada. Quem se apaixona entra num caminho mais do que num estado, num futuro mais do que num estar” (José Cristo Rey García Paredes, em O Que Deus Uniu – Teologia da vida matrimonial e familiar).
Entrar num caminho significa não se deixar anestesiar pela rotina, ser criativo aproveitando as oportunidades para crescer na construção do nós.
Como bem lembra o Papa Francisco, na exortação apostólica Amoris Laetitia (A.L.), “a água estagnada, corrompe-se, estraga-se”.
“Vale a pena também refletir um pouco sobre a diferença entre amar e desejar. Diz-se que «o desejo quer possuir, enquanto o amor quer compreender». Afinal, o desejo é químico, imediato e inflamável. O amor, em contrapartida, é estrutural: exige tempo, exige renúncia, exige memória. É um fenómeno de longa duração, uma reação de segunda ordem, em que o produto final depende não da velocidade inicial, mas da persistência” (Nuno Maulide, em A Química das Emoções).
“O casamento é o início do processo, não é o final conseguido. Muitas vezes, dizem do casamento: «Este é o melhor dia da minha vida»! é uma frase que não se deve dizer! Porque, assim sendo, todos os outros dias terão de ser piores. Uma coisa é certa: o que não cresce, decresce. Parado, meio-termo, neutro na vida…não existe. Se não estou a progredir, estou a regredir. «Agora paramos por aqui» – isto não se deve dizer, porque, então, começa-se a andar para trás. Estagnar é estragar-se. Se não se investe, naturalmente, todas as coisas se desagregam e se degradam” (Padre Vasco Pinto de Magalhães, em O Que Não Cresce, Decresce).
O Padre Michel Quoist é bem explícito no seu texto O amor, uma estrada, citado no livro Caminhada em Matrimónio, um guia para noivos e famílias:
“O amor não se compra.
Constrói-se.
Não é um vestido ou um fato prontos a vestir,
Mas uma peça de tecido que precisamos de cortar, montar e costurar.
Não é um apartamento, entregue, de chaves na mão,
Mas uma casa a ser planeada, contruída, sustentada e, às vezes, reparada.
Não é uma montanha vencida,
Mas a partida desde o vale, com subidas apaixonantes, quedas perigosas
No frio da noite ou no calor do sol brilhante.
Não é um pouso seguro no porto da felicidade,
Mas o levantar da âncora e viajar no alto mar, na bonança ou na tempestade.
Não é um sim triunfante, enorme ponto final que se escreve em música,
Ente sorrisos e aplausos,
Mas uma imensidão de sins que pautam a vida,
Entre uma multidão de nãos que apagamos caminhando.
(…).
É querer prosseguir até ao fim
O projeto preparado a dois e livremente assumido.
É ter confiança no outro, apesar das sombras da noite.
É sustentar-se mutuamente nas quedas e no sofrimento.
É ter fé no amor todo-poderoso, para além do amor”.
De tudo o que se expôs importa, também por isso, revisitar o que nos diz o Papa Francisco na A.L.:
“Infelizmente, muitos chegam às núpcias sem se conhecer. Limitaram-se a divertir-se juntos, a fazer experiências juntos, mas não enfrentaram o desafio de se manifestar a si mesmos e aprender quem é realmente o outro. (…). Tanto a pastoral pré-matrimonial como a matrimonial devem ser, antes de mais nada, uma pastoral do vínculo, na qual se oferecem elementos que ajudem quer a amadurecer o amor, quer a superar os momentos duros. Estas contribuições não são apenas convicções doutrinais, (…), mas devem ser também percursos práticos, conselhos bem encarnados, estratégias tomadas da experiência, orientações psicológicas”.
Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de julho de 2026 do Jornal da Família
Foto: Magnific





