A ordem internacional atravessa um período de crescente fragmentação. A dificuldade em alcançar consensos sobre conflitos armados, alterações climáticas ou comércio internacional, aliada ao recurso frequente a soluções unilaterais, tem colocado em causa a credibilidade das instituições multilaterais. O problema, porém, não reside na ideia de multilateralismo em si, mas na incapacidade das organizações internacionais para responder de forma eficaz e equilibrada às crises contemporâneas.
Por isso, mais do que abandonar o multilateralismo, importa restabelecer a sua credibilidade. Esse objetivo passa por tornar as instituições internacionais mais representativas das atuais dinâmicas globais, reforçar o cumprimento do direito internacional e garantir que as decisões multilaterais sejam aplicadas de forma mais consistente, justa e equilibrada. A confiança nas organizações internacionais depende, em grande medida, da perceção de que estas continuam a ser espaços de diálogo genuíno e de procura do interesse comum.
É neste contexto que a diplomacia da Santa Sé continua a ter um papel próprio, que já pude mencionar nalguns artigos anteriores. A Santa Sé possui uma margem de credibilidade especial enquanto interlocutor, já que não depende de fatores militares ou económicos. O estatuto de Observador Permanente junto das Nações Unidas, que detém desde 1964, permite-lhe participar regularmente nos trabalhos da ONU, apresentar posições sobre os principais temas da agenda internacional e contribuir para a construção de consensos, apesar de não dispor de direito de voto.
A contribuição da Santa Sé para o reforço do multilateralismo pode ser pela insistência em princípios que frequentemente ficam subordinados às lógicas de poder: a centralidade da pessoa humana, o primado do diálogo, a defesa do direito internacional e a necessidade de preservar canais de comunicação mesmo entre Estados em conflito. A sua capacidade para manter relações diplomáticas com países de diferentes orientações políticas e religiosas faz dela um ator particularmente apto para promover entendimentos onde outros interlocutores encontram maiores dificuldades.
Num momento de crescente ceticismo em relação ao sistema multilateral, a Santa Sé tem razões para perseverar nesse caminho. Não porque as instituições internacionais sejam isentas de falhas, mas porque a alternativa, em que prevaleceria a lógica da força e da competição, oferece poucas perspetivas de estabilidade duradoura. A recuperação da credibilidade do multilateralismo dependerá, em última análise, da capacidade dos diferentes atores internacionais de demonstrar que a cooperação continua a produzir resultados concretos, e a diplomacia vaticana pode continuar a desempenhar um papel relevante nesse esforço.
Murillo Missaci
missacimb@gmail.com
Artigo da edição de agosto/setembro de 2026 do Jornal da Família
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