Há tradições que não se repetem, apenas se renovam. No Centro de Cooperação Familiar | Lar Betânia, em Fátima, a festa dos Santos Populares é uma dessas tradições que ganha vida todos os anos, e que em cada ano ganha um brilho especial. Sob o lema “Vidas com História – Retalhos de Amor”, os utentes desfilaram no exterior da instituição, levando consigo não só os figurinos cuidadosamente preparados ao longo de meses, mas também os “retalhos” das suas próprias histórias – pedaços de vida que emocionaram colaboradores e familiares presentes.
Meses de preparação, um dia de emoção
A festa começou muito antes do arraial. “A preparação desta atividade começou em setembro”, recorda Joana Torres, animadora sociocultural. Foi preciso escolher o tema que acompanharia a vivência do Lar Betânia ao longo do ano pastoral, depois escolher dinâmicas em torno dele e, sobretudo, envolver os utentes. “Tentámos que as marchas fossem alusivas ao tema”, explica. E foram não apenas alusivas, mas profundamente enraizadas nas vivências de cada utente.
Num grande painel, que servia de arco a uma das marchas, frases reais contavam histórias de coragem, fé, perdas, superação e amor. “São histórias verdadeiras. Eles permitiram que partilhássemos um bocadinho da história de cada um deles”, diz Joana Torres. Entre essas histórias, lia-se: “Tinha 19 anos e estava para casar, mas o meu namorado faleceu e nunca mais quis ninguém”; “Aos 20 anos tinha 5 filhos e era a pessoa mais pobre da Cova da Iria e aos 50 anos tinha lojas e restaurantes”; “Tenho 102 anos e acredito que a felicidade que encontrei nas pequenas coisas me tem feito viver com alegria e paz.” Estes ‘retalhos’ foram depois transportados pelos próprios utentes mais dependentes, em cadeira de rodas, durante o desfile. Um gesto simples, mas carregado de dignidade.
Inclusão que se vê
“Tentámos envolver todos, adaptando a atividade de forma que, na medida das suas possibilidades físicas e cognitivas, todos participassem”, sublinha Nélia Reis, assistente social. E assim foi. Desfilou uma marcha de utentes em cadeira de rodas, outra de utentes com alguma autonomia, apoiados por familiares e colaboradoras, e uma terceira marcha de utentes mais autónomos. Dos 73 idosos da instituição, só três é que não desfilaram devido às condições físicas muito debilitadas.

“Eles estavam contentes, estavam alegres, porque foram envolvidos em todo o processo”, afirma Nélia. “Desde a confeção dos materiais, das roupas, dos adereços… isso dá-lhes vida e dá-nos também vida a nós, porque gostamos muito daquilo que fazemos e gostamos muito de os ver felizes.” Nélia acrescenta um detalhe: “A confeção das roupas era um sonho meu. Este ano, como o tema era ‘Retalhos de Amor’, criámos um projeto de costura e envolvemos as senhoras. Eu, como tinha algum jeito, costurei as roupas, mas todas trabalharam, todas contribuíram.”
A diretora do Centro de Cooperação Familiar | Lar Betânia, Alice Cardoso, reforça o simbolismo: “os retalhos, os fios que se vão tecendo ao longo destas vidas, procuramos sempre que sejam expressão de vida e de amor.”
Famílias presentes
A festa é também um momento de encontro entre gerações. “Temos o privilégio das famílias serem muito presentes”, diz Nélia com orgulho. Muitas acompanharam todo o processo e, no dia, desfilaram ao lado dos seus familiares.
Além das marchas, o dia incluiu uma banca de artesanato, com produtos elaborados pelos utentes, onde não faltaram panos e sacos de “retalhos”, compotas e manjericos. A festa contou com ‘bailarico’ abrilhantado pelo grupo de concertinas do Olival, que se associou ao evento a título gratuito. Ao som dos seus acordes, utentes, familiares, colaboradoras e Cooperadoras da Família, deram o seu pezinho de dança… e até os utentes em cadeira de rodas passearam pelo recinto ao ritmo das notas musicais, conduzidos por familiares e colaboradoras.
Houve ainda um lanche partilhado, onde não faltou o caldo verde e a sardinha assada, tudo preparado com o contributo de colaboradores, famílias e parceiros locais a quem a direção do Lar Betânia agradece. “Em termos de aquisição de bens, houve vários descontos, mas donativos mesmo, eu gostaria de referir as FrutasCila, que nos brindaram com fruta para este dia e a Padaria Carvalhana, que forneceu a broa e o pão de mistura. Foram muito generosos uns e outros”, afirma Alice Cardoso.
A voz das famílias
Para quem tem um familiar no Lar Betânia, este dia é mais do que uma festa, é um testemunho de cuidado. Maria do Carmo, filha da utente Maria de Jesus Freire, não esconde a emoção: “A minha mãe tem 91 anos e está a ser muito bem tratada. Estas festas são espetaculares. São lindas.”
Também Diogo Baptista, filho da utente Maria de Jesus Baptista, destaca o impacto destas iniciativas: “A minha mãe veio de pé atrás, mas adaptou-se e está muito bem. Estes convívios são importantíssimos. Só tenho uma palavra: é top.”
A atividade foi também uma oportunidade para recolher a avaliação das famílias sobre várias áreas da instituição, desde os cuidados pessoais e de imagem, aos cuidados de saúde, às atividades socioculturais, ao desempenho da direção e da equipa, à higienização das instalações e à qualidade global dos serviços prestados. No exterior, uma bancada preparada para o efeito, permitiu que os familiares realizassem essa avaliação de forma simples e intuitiva, reforçando a proximidade e a corresponsabilidade que caracterizam o Lar Betânia.

Foto: Lara dos Santos, Conceição Pereira, Joana Torres, Alice Cardoso e Nélia Reis
Retalhos de amor que se tornam memória
No final do dia, entre música, cor, histórias e abraços, ficou a certeza de que cada utente, com mais ou menos autonomia, tem uma vida cheia de história, digna de ser celebrada. E que no Lar Betânia, essas histórias não são apenas lembradas: são honradas, partilhadas e transformadas em festa.
As marchas dos Santos Populares encerram o ano pastoral, mas deixam a promessa de que, enquanto houver retalhos de amor, haverá sempre vida para celebrar e agradecer.
Texto e fotos: IM
Artigo da edição de agosto setembro 2026 do Jornal da Família





