Neste exercício de partilhar convosco, queridos leitores, várias reflexões acerca das coisas da vida, gostaria de ‘pensar alto’ algo que é uma presença constante no meu dia a dia: refiro-me aos livros e à leitura dos mesmos. Eles são um instrumento fundamental para o meu trabalho.
Já alguém disse que foi ao ombro de gigantes que conseguiu ver mais longe. Na verdade, se outros antes de nós não tivessem registado o seu pensamento e a sua reflexão por escrito, certamente seriamos imensamente mais pobres. É também porque temos acesso a essa enorme riqueza que temos a possibilidade de dar passos em frente. O acervo contido nos livros é para todos nós uma possibilidade de ampliar o horizonte do nosso conhecimento e da nossa reflexão. A este propósito recordo aquilo que o Papa Francisco disse acerca da leitura, referindo-se a ela como uma espécie de ginásio de discernimento (cf. O papel da literatura na educação nº23-29):
«O ato de ler é, pois, como um ato de “discernimento”, graças ao qual o leitor é implicado na primeira pessoa como “sujeito” da leitura e, ao mesmo tempo, como “objeto” do que lê. Ao ler um romance ou uma obra poética, o leitor experimenta efetivamente “ser lido” pelas palavras que vai lendo. Deste modo, o leitor é semelhante a um jogador em campo: faz acontecer o jogo, ao mesmo tempo que o jogo acontece através dele, na medida em que está totalmente envolvido naquilo que faz.» (nº 29)
E um pouco mais à frente diz que ao lermos colocamo-nos na condição de «ver com os olhos dos outros», adquirindo uma amplitude de perspetiva que alarga a nossa humanidade e que ativa em nós o poder empático da imaginação, que é um veículo fundamental para essa capacidade de identificação com o ponto de vista, a condição, o sentimento dos outros, sem a qual não há solidariedade, partilha, compaixão, misericórdia. (cf. nº 34)
Mas os livros não constituem só a possibilidade de eu realizar o meu trabalho. Nos últimos tempos tenho redescoberto uma nova maneira de ler, que me tem conduzido a uma outra valorização da leitura. Estou a pensar nos momentos que dedico a ler livros com o meu neto. É uma belíssima experiência que me traz à memória momentos semelhantes vividos com os meus filhos e me tem feito pensar.
Dizem que vivemos na sociedade da imagem, dizem que uma imagem pode valer mais do que mil palavras. Isso tudo é verdade, mas também é verdade que quando uma criança pede a um adulto que lhe leia um livro, podemos descobrir nela a alegria e o prazer que esse gesto lhe proporciona. É certo que o faz porque isso é uma maneira de ter o adulto, de quem gosta, perto de si. Mas também o faz porque pressente que, através dos livros, a sua enorme vontade de saber mais pode ter respostas concretas.
Porque é que este gosto natural muitas vezes se perde com o tempo? Porque é que muitos jovens dizem que não gostam de ler? Que fazer para que a leitura não seja tantas vezes aquela coisa aborrecida e obrigatória?
Sinceramente não tenho respostas claras para estas perguntas, mas parece-me que é necessário investir muito nesta área. Parece-me que é importante ajudar a crescer e a desenvolver o gosto natural que as crianças demonstram pelos livros. E neste tempo, em que muitos de nós mudámos de ritmos e podemos fazer coisas diferentes, talvez possamos apostar mais nesse exercício.
Cá por mim uma coisa eu sei: vou continuar a apostar e a deliciar-me com as leituras que faço com o meu neto. E ao escrever isto revejo-o a ir buscar um livro, a chamar-me para que me sente ao lado dele, ou a instalar-se comodamente ao meu colo, para que a minha leitura e a minha voz o ajudem a descobrir coisas novas e fascinantes. E na alegria e fascínio dele, vejo o milagre da vida a acontecer e no meu coração surge um imenso hino de louvor e ação de graças ao Bom Deus.
Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de agosto/setembro de 2026 do Jornal da Família
Foto: Imagem gerada por IA via Copilot (por IM)





