A atrevida da Margarida, de oito anos, saiu-se há dias com esta reclamação: “Ó avó, o avô está o obrigar-me a pensar”!
E porquê? Porque estava a apresentar-me algumas dúvidas do seu “TPC” e eu, em vez de lhe dar simplesmente a resposta, fazia-a pensar. Ia fazendo perguntas, levando-a por este ou por aquele caminho, até que fosse ela a descobrir a solução.
As primeiras duas vezes ainda aguentou com alguma (im)paciência. À terceira, foi de vez. E, zás, soltou a queixa em alta voz:
Garanto-vos que fiquei “feliz”.
Infeliz fiquei, isso sim – embora não tenha ficado surpreendido – quando, dias depois, conheci os nossos resultados no tão falado PISA, o “exame” da OCDE que, de três em três anos, avalia alunos de 15 anos de muitos países em três áreas: leitura, Matemática e Ciências.
O PISA não é um exame escolar, daqueles que servem para dar uma nota ao aluno. Procura antes perceber se os adolescentes sabem usar aquilo que aprenderam para resolver problemas, pensar sobre situações concretas e encontrar respostas para os desafios da vida real. E é muito importante pois permite comparar os resultados dos diferentes sistemas educativos.
Com tanto apelo ao digital, às redes sociais e a muitas (outras) distrações, os nossos adolescentes falharam muito e, comparativamente aos anos anteriores, sobretudo 2015, “ficaram muito mal na fotografia”…
E não pensemos que isto acontece apenas aos alunos de famílias ou de meios sociais mais desfavorecidos. Não, pelo contrário: os alunos oriundos de contextos sociais mais favorecidos foram os que mais pioraram. Estranho, não é?
Mais uma vez digo que para mim nada disto me surpreende. Durante anos fomos retirando peso a uma cultura de estudo, de esforço, de disciplina e de avaliação. Foi-se instalando a ideia de que não é preciso memorizar, de que estudar muito não é assim tão importante e de que se pode aprender sem grande esforço. Ao mesmo tempo, os livros foram perdendo espaço na vida das nossas crianças e dos nossos jovens. Os professores (e muitos pais) bem insistem, certamente. Mas têm pela frente uma concorrência poderosíssima: telemóveis, redes sociais, vídeos, jogos e tantas outras distrações. E, quando não existe desde cedo o hábito de ler, até um bom livro pode transformar-se numa obrigação, em vez de ser um prazer.
A este propósito, o relatório da OCDE é muito contundente: “O mais grave é que a leitura é a base para compreender tudo o resto, seja para resolver um problema de álgebra, analisar uma informação histórica ou interpretar uma experiência científica. E o facto é que os países que enfrentam as perdas mais acentuadas na leitura tendem igualmente a ver diminuir o desempenho dos alunos a Matemática e a Ciências”.
Também as mudanças que, em Portugal, foram ocorrendo nos currículos escolares, nas famílias e na sociedade em geral, com menos apelo à exigência e à disciplina, a par de uma oferta sedutora de múltiplas atividades extraescolares, foram sublinhadas no relatório. Ora vejam: “A mudança acabou por refletir-se numa dificuldade crescente nas tarefas que implicam concentração, uma maior tendência para dar respostas apressadas, menos disposição para se esforçarem nos testes e menos curiosidade e perseverança”.
Vale a pena pensar nisto.
Estarão os nossos jovens preparados para a vida que os espera? Para os 50 anos de trabalho que terão pela frente? Para os imprevistos, as dificuldades, as contrariedades, os problemas que inevitavelmente irão encontrar? Para relações humanas que nem sempre serão fáceis? E também, naturalmente, para tudo aquilo que de bom e de belo a vida lhes há de proporcionar?
Perante este quadro sombrio, não culpemos (somente) os governantes, os políticos e a escola. Não!
Também nós, pais, avós e educadores, sociedade, temos (grandes) responsabilidades. É cada vez mais frequente ouvir dizer que há crianças que chegam ao infantário ou à escola com dificuldade em aceitar uma regra, uma contrariedade ou um simples “não”. Algumas não estão habituadas ao esforço, à espera, à concentração, a “pensar”. Há pais que, com a melhor das intenções, procuram poupar os filhos a todas as dificuldades e a todos os sacrifícios. Mas, ao fazê-lo, podem estar também a privá-los de algo essencial: a oportunidade de aprenderem a enfrentar a vida “real”.
E depois há a Inteligência Artificial.
Pode ser uma extraordinária ferramenta para aprender mais e melhor. Mas, se for usada apenas para fazer os trabalhos pelos alunos, encontrar imediatamente todas as respostas ou evitar o esforço de pensar, pode produzir precisamente o efeito contrário: em vez de desenvolver capacidades, pode atrofiá-las.
Se a vida não nos desafiar a sair de nós próprios e a empenhar-nos por projetos pessoais e por causas em prol do bem-comum, facilmente caímos na preguiça, na apatia, na desmotivação e até na falta de sentido para aquilo que fazemos. E isso, longe de nos tornar felizes, pode acabar por nos tornar mais infelizes. (Já para não falar da falta de vivência dos valores espirituais, indispensáveis para nos sentirmos “bem”.)
Por isso, talvez devamos recuperar uma palavra que hoje parece quase proibida: exigência.
Vamos, pois, “obrigar” os nossos filhos, os nossos netos e os nossos alunos a pensar. A fazer perguntas. A procurar respostas. A arriscar. A serem curiosos, criativos, perseverantes e capazes de enfrentar dificuldades.
Tenho a certeza de que a Margarida, daqui a uns anitos, há de agradecer muito ter tido um avô que, quando era pequena, a “obrigava” a pensar.
Mesmo que, por ora, ainda se queixe disso…
Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de outubro do Jornal da Família de 2026
Ilustração gerada por IA via Copilot (por IM)





