O neurocientista Michel Desmurget, no seu livro A Fábrica dos Cretinos Digitais, afirmou, numa entrevista concedida à BBC, que os nativos digitais são os primeiros filhos a terem um Quociente de Inteligência inferior ao dos seus pais.
O autor atribui este facto ao abusivo consumo recreativo digital (telemóveis, tablets, consolas de jogo. etc.).
“A partir dos 2 anos de vida, as crianças dos países ocidentais acumulam diariamente, em média, cerca de 50 minutos de ecrãs. Entre os 2 anos e os 8 anos, esse período aumenta para cerca de duas horas e quarenta e cinco minutos. Entre os 8 e 12 anos, atinge as quatro horas e quarenta e cinco minutos. Entre os 13 e os 18 anos, ultrapassa as sete horas e quinze minutos”.
Não se trata, bem entendido, de demonizar os meios digitais para fins recreativos – eles podem ser úteis desde que utilizados com “conta, peso e medida”.
O uso desregrado destes instrumentos tem consequências nefastas em várias dimensões:
- A nível físico: excesso de peso, deficit de capacidade cardiovascular, quebra de energia pessoal, perturbações do sono. Sem uma higiene do sono adequada são múltiplas as sequelas que se refletem numa “sensação” de cansaço permanente. O exercício físico é estimulante e, nessa medida, contribui para aumentar os nossos índices de motivação;
- A nível emocional: dificuldades no relacionamento interpessoal, que se podem traduzir na ansiedade, na impaciência, na agressividade, na falta de empatia. Ora esta competência é, consabidamente, a base para o desenvolvimento de outras, como sejam: a sociabilidade, a recetividade e a mediação;
- A nível cognitivo: falta de poder de concentração e deficiente verbalização – o “stock” de palavras disponível é manifestamente reduzido. Evidentemente que esta lacuna tem, também, repercussões na fluidez da escrita. As palavras são códigos que estimulam o pensamento e, nessa medida, são um sustentáculo indispensável para o processo de tomada de decisão;
- A nível de exposição ao chamado conteúdo de risco (sexual, tabágico, alcoólico, assédio em geral). Os suportes digitais que veiculam este tipo de mensagens para as crianças e adolescentes, criam hábitos perniciosos que, não raras vezes, deixam marcas para o resto da vida.
O tempo é limitado, tem de ser gerido criteriosamente, por isso é requerido, no processo educacional, menos exposição aos ecrãs, de modo que as crianças e os adolescentes possam aceder a outro tipo de atividades pedagogicamente relevantes.
Precisam de brincar em ambiente real, é uma forma de dominarem os seus medos e desenvolverem as suas capacidades. Como diz o psicólogo social Jonathan Haidt, no seu livro A Geração Ansiosa, “é mais provável que as crianças progridam se tiverem uma infância centrada em brincar no mundo real. São menos tendentes a evoluir se tiverem uma parentalidade receosa e uma infância centrada no telefone que as privem de oportunidades de crescimento”.
O aforismo diz-nos “aprender até morrer”, neste sentido urge destacar, agora para todos os estratos etários, “que a leitura nos torna melhores devido à sua capacidade de enriquecer todos os aspetos fundamentais do nosso funcionamento sócio emocional. Nenhum outro meio nos permite dissecar e penetrar na psique dos outros com tanta acuidade. Mais uma vez, as obras de ficção desempenham um papel essencial. São verdadeiros «simuladores sociais», que possibilitam ao leitor ser, durante algum tempo, aquilo que não é e nunca será. (…). Esta pluralidade tem uma influência profunda na nossa capacidade de compreendermos os nossos semelhantes, quer a nível emocional, quer a nível intelectual” (Michel Desmurget, Ponham-nos a Ler!).
Recentemente o Papa Francisco, numa Carta dedicada ao papel da literatura na educação, enfatiza os seus benefícios:
“Ao contrário dos meios audiovisuais, onde o produto é mais completo, e a margem e o tempo para “enriquecer” a narrativa ou para a interpretar são geralmente reduzidos, o leitor é muito mais ativo quando lê um livro. De certo modo, reescreve-o, amplia-o com a sua imaginação, cria um mundo, usa as suas capacidades, a sua memória, os seus sonhos, a sua própria história cheia de dramatismo e simbolismo; e assim surge uma obra muito diferente daquela que o autor pretendia escrever. Uma obra literária é, portanto, um texto vivo e sempre fértil, capaz de falar de novo e de muitas maneiras, capaz de produzir uma síntese original com cada leitor que encontra. Este, enquanto lê, enriquece-se com o que recebe do autor, mas isso permite-lhe, ao mesmo tempo, fazer desabrochar a riqueza da sua própria pessoa, pois cada nova obra que lê renova e expande o seu universo pessoal”.
Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de outubro de 2024 do Jornal da Família
Imagem ilustrativa: Pixabay




