Face à «Rapidación» a sabedoria da Quaresma

Num tempo dominado pela «rapidación», em que tudo nos empurra para a pressa e o excesso, a Quaresma pode revelar-se uma surpreendente escola de desaceleração. Segundo Juan Ambrosio, mais do que prática religiosa, surge como convite urgente a recentrar a vida pessoal e coletiva no essencial.

Num texto recentemente publicado no site da Rádio Renascença intitulado a Quaresma do Mundo, cuja leitura vivamente recomendo, o antropólogo e professor da Faculdade de Teologia Alfredo Teixeira propõe-nos uma reflexão que me parece certeira, no momento histórico que vivemos.

O texto começa assim:

A tradição cristã conhece bem a gramática dos “tempos fortes”. Entre eles, a Quaresma ocupa um lugar singular: quarenta dias de preparação, jejum, oração e esmola, orientados para uma pedagogia da conversão. Trata-se de um tempo inscrito no calendário litúrgico, mas não é um tempo encerrado nos limites do ritual religioso. É um dispositivo social de desaceleração e recentramento. A Quaresma institui uma interrupção no fluxo ordinário da vida, suspendendo excessos, relativizando consumos e convidando a uma concentração no essencial.
Num tempo como aquele que vivemos – marcado pela aceleração sistémica, pela saturação de estímulos e pela exploração intensiva dos recursos naturais – talvez possamos reaprender a ler a Quaresma não apenas como prática devocional, mas também como um tempo social oportuno. Precisamos, enquanto coletividade, de “tempos de contenção”: momentos institucionais e pessoais em que a expansão cede lugar à medida regrada, o consumo à frugalidade, a pressão produtivista ao cuidado.

O desafio lançado é não só muito interpelante como é também necessário. Trata-se de ler e viver a Quaresma não só a partir de uma perspetiva religiosa, mas também a partir de uma perspetiva social e porque não também, acrescento eu, a partir de uma perspetiva cultural.

As notícias que constantemente nos chegam através das mais diversas plataformas e acerca das mais diversas realidades são testemunho inequívoco da aceleração de vida em que todos estamos envolvidos. Tudo acontece a uma velocidade tal, desafiando-nos a uma resposta ao mesmo ritmo, de tal modo que não temos tempo para consolidar reflexões e procurar soluções que sejam robustas. É verdade que muitos acontecimentos, como estes recentemente vividos ao nível das tempestades, exigem ação rápida e quase que imediata. A vida das pessoas assim o exige. Mas isso não pode ser incompatível com um outro exercício que implique a desaceleração, o recentramento, a contenção e a concentração no essencial. Só este exercício me parece poder proporcionar as respostas que, depois daquelas que é logo necessário dar, permitam a consolidação de opções que possibilitem a verdadeira promoção e defesa da dignidade humana.

O Papa Francisco na Encíclica Laudato si’ tinha já alertado para esta aceleração e para os enormes desafios que dela decorrem:

A contínua aceleração das mudanças na humanidade e no planeta junta-se, hoje, à intensificação dos ritmos de vida e trabalho, que alguns, em espanhol, designam por «rapidación». Embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as ações humanas contrasta com a lentidão natural da evolução biológica. A isto vem juntar-se o problema de que os objetivos desta mudança rápida e constante não estão necessariamente orientados para o bem comum e para um desenvolvimento humano sustentável e integral. A mudança é algo desejável, mas torna-se preocupante quando se transforma em deterioração do mundo e da qualidade de vida de grande parte da humanidade. (nº 18)

Retorno ao texto de Alfredo Teixeira, pois nele encontro uma clara sugestão de resposta a estes desafios:

Imaginemos o que significaria, como sociedade, assumir uma espécie de Quaresma civil: períodos definidos de redução drástica do consumo energético; moratórias sobre práticas ambientalmente predatórias; campanhas públicas de simplicidade voluntária; suspensão simbólica de certas lógicas de hiperprodução. Não como punição, mas como gesto de cuidado.

Sinceramente estou convicto, tal como o autor do texto aqui referido, de que a nossa época necessita urgentemente de redescobrir o valor antropológico e social de tempos fortes, como o da Quaresma, para reconhecer que a vida individual e coletiva está a pedir outro ritmo e outro foco. Esse também pode e deve ser, no meu entender, um dos testemunhos mais necessários e urgentes que os cristãos e as suas comunidades são chamados a dar nesta Quaresma.

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de março de 2026 do Jornal da Família


Foto: Pixabay

 

 

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