Ser professor? Nem pensar!

De uma profissão prestigiada e valorizada, a uma profissão que, por várias razões, poucos ousam escolher. Para os jovens que sentem vocação para o ensino, Jorge Cotovio pede que sejam mais “acarinhados e estimulados” porque “sem professores qualificados e motivados é posto em causa o futuro dos vossos filhos e o futuro da sociedade”.

Quando há duas ou três décadas os países nórdicos começaram a ter falta de professores, nós, por cá tínhamo-los a mais. O drama em cada início de ano letivo era a quantidade de professores no desemprego e o número de “horários zero” nas escolas para professores efetivos que não tinham turmas atribuídas.

Como a fartura era muita, a classe docente não precisava de ser acarinhada e valorizada pelos poderes políticos. E nem a experiência da maioria dos países europeus fez os governantes prevenirem-se a tempo de evitar os dramas do presente: dezenas de milhares de alunos sem aulas a uma ou mais disciplinas por falta de professores.

Lembro-me que há trinta e tal anos a primeira disciplina a ter excedente de professores foi História. Porque reagimos impulsivamente e com olhar ligeiro, olhando o futuro com os olhos do presente, perante um curso “sem saída” os pais desaconselhavam os filhos s a frequentá-lo. O mesmo foi sucedendo, nos anos seguintes, com outras disciplinas. Confrontados com este quadro, os pais começaram a influenciar os filhos para seguirem outros cursos, que não os da via de ensino.

Recordo-me que há uma dúzia de anos, em plena troika, eu comecei a recomendar fortemente os jovens estudantes a optarem pela carreira do ensino, pois quando terminassem o curso tinham, seguramente, emprego garantido e uma profissão mais valorizada socialmente.

Era fácil de prever esta situação, ademais quando havia indícios de aumentar exponencialmente a imigração. Mas os governantes, mais apostados em outras “prioridades”, deixaram correr, “empurrando os problemas com a barriga”, como muito bem diz o povo… Também os pais continuaram a não ajudar, sonhando ver os filhos doutores de outras áreas mais distintas, quiçá melhor remuneradas (às vezes isto é uma ilusão…).

Entretanto, cresceu na sociedade a ideia de que os ambientes escolares estavam mais tensos, com muita violência e insegurança à mistura. Para tal, também terá contribuído a comunicação social, sempre apostada em destacar os aspetos negativos e os casos mais sensacionalistas (outra ilusão, pois as situações muito graves são, felizmente, exceção e não regra).

O que se vai realmente sentindo é uma gradual “indisciplina latente”, que mói, que desgasta, que cansa, consequência da educação dada pelos pais, assente, sobretudo, no protecionismo excessivo, no facilitismo, na tentação de retirar aos filhos, a todo o custo, a “dor”, o esforço, o sacrifício, o trabalho, para que eles se sintam “bem”, sem queixas, sem choros, sem amuos. Habituados a esta (má) educação (tantas vezes também alimentada pelos avós), as crianças e os adolescentes instintivamente reagem à autoridade do professor (e dos funcionários), criando ambientes difíceis de gerir, sobretudo em sala de aula. Para complicar ainda mais este panorama, muitos pais, ultrapassando as suas competências, também querem “mandar na escola”, interferindo na dinâmica organizativa da instituição.

Vamos ser realistas: quem é o jovem que, apesar da sua vocação para “ensinar”, se dispõe facilmente a optar por esta “missão”? Poucos – muito poucos – para as muitas necessidades existentes. “Ser professor, nem pensar”, dizia há tempos um rapazola muito estudioso e capacitado, logo acolitado por colegas que acrescentavam não querer “aturar os filhos dos outros”, porque “é muito difícil”…

Aliás, no momento presente, são uns verdadeiros heróis os jovens que se sentem chamados a ser professores e frequentam cursos das áreas do ensino. Todos eles deviam ser acarinhados e estimulados por nós, a começar pelas famílias. Não esqueçamos que é também graças a estes heróis e a estas heroínas que estas crianças (e adolescentes e jovens) vão adquirir competências e valores que lhes possibilitam sentirem-se, no presente e no futuro, realizados e felizes. E é graças a eles e a elas que a sociedade prospera.

Como também o Presidente da República deveria “condecorar” todos os professores (e funcionários) que dedicaram a sua vida profissional a ensinar, a educar, a fazer desabrochar as potencialidades e os talentos que a pessoa de cada aluno encerra dentro de si, como dons de Deus. Todos mereciam uma “medalha de ouro”!

Creio que, desta forma, a profissão docente sairia socialmente prestigiada e valorizada. E, gradualmente, os muitos jovens que até se sentem vocacionados para o ensino, não hesitariam em prosseguir esta carreira, mesmo com a desconfiança dos pais (que gostariam mais de os ver CEO de uma grande empresa, diretores-gerais de um organismo público, artistas conceituados ou até mesmo afamados futebolistas…).

Fica este repto para todos os adultos, sobretudo para os pais (e avós): eduquem bem os vossos filhos, não castrem a sua vocação de serem professores, valorizem e “bendigam” os atuais educadores, docentes e não docentes. Olhem que sem professores qualificados e motivados é posto em causa o futuro dos vossos filhos e o futuro da sociedade.

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de dezembro de 2024 do Jornal da Família

Foto ilustrativa: Pexels/Max Fischer

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