(VIII) Padre Alves Brás – Cem anos de Sacerdócio em prol da Família

Depois de “ver” e de “julgar”, o Pe. Brás parte para o “agir” e funda um conjunto de Obras para “cuidar e santificar a família”. O modelo é a Família de Nazaré. Neste artigo, Frei Filipe Rodrigues continua a destacar a atualidade do pensamento e ação do Pe. Alves Brás, um homem que viveu à frente do seu tempo.

O modelo da Sagrada Família para “cuidar e santificar a família”

Depois de “ver” e de “julgar”, o Pe. Brás parte para o “agir” e funda um conjunto de Obras para “cuidar e santificar a família”. O modelo é a Família de Nazaré. Neste artigo, Frei Filipe Rodrigues continua a destacar a atualidade do pensamento e ação do Pe. Alves Brás, um homem que viveu à frente do seu tempo. O último de dois artigos que mostram um homem precursor de uma pastoral familiar assente no cuidado da família e na sua santificação.

Queria refletir convosco sobre a importância da família e das famílias no Pe. Brás. E a primeira referência é, naturalmente, a família biológica do Pe. Brás: a família de Casegas. Temos o ditado: “O que o berço dá, a morte o leva” para dizer que o que recebemos na família transportamos connosco toda a vida. Não só a nível de desenvolvimento biológico, mas também a nível afetivo. Hoje sabemos com certeza que o que uma criança faz nos primeiros três anos é mais importante do que tudo o que ela vai fazer depois, para o resto da vida. Hoje sabemos com certeza de que é na primeira infância que se constrói o alicerce do humano, a base onde serão fixadas todas as estruturas para a vida. E sabemos todos que aquilo que é bem construído poderá suportar crescimento e transformações.

Nesta primeira infância estão os pais (os avós e os cuidadores são colaboradores, mas não substitutos) como referências e como transmissores da vida (no sentido mais global que a palavra vida possa ter). E o Pe. Brás teve boas referências que o marcaram para a vida toda: os pais, os irmãos, os afetos (que naquela altura eram pouco expressivos, mas que existiam), as atitudes que via e que lhe eram exigidas, o ambiente cristão… e até a própria doença o moldou porque não era só o rapaz que sofria, era toda a família que sofria com ele.

Como seminarista, Joaquim Alves Brás vê-se acolhido por outra família. Como sabemos da História, o regime republicano tinha proibido a reabertura do Seminário do Fundão… mas a diocese tinha seminaristas. E envia os seminaristas para casas de famílias – famílias de acolhimento, diríamos hoje – que acolhem os vários seminaristas que a diocese tem. E os primeiros anos de seminarista são vividos em família, não na família biológica, mas numa família cristã que, sem ter essa função, acaba por ser a comunidade formadora dos que vão ser padres. Acolhimento, partilha, oração é o que Joaquim Alves Brás e os seus companheiros vão encontrar nas famílias que os acolhem.

É com esta bagagem familiar e afetiva, juntamente com as exigências que ele próprio se impõe a nível de comportamento, virtude e piedade, que o jovem Pe. Brás inicia um fecundo período de apostolado que só vai ter fim no dia da sua morte. E se até aqui vemos que ele foi influenciado pela família, a partir daqui ele vai influenciar as famílias, tornando-se com propriedade o “apóstolo das famílias”.

Sabemos pouco sobre a importância da festa litúrgica da Sagrada Família no ministério sacerdotal do Pe. Brás. No entanto, sabemos que, já como pároco de Donas, ele falou deste assunto, mas também sabemos, por exemplo, que em 1936, para resolver uma situação de emergência ele terá presidido a uma missa com pregação, em reparação dos pecados das famílias. Desta pregação temos as bases que vão estar na fundação do Movimento por um Lar Cristão (MLC): A família é a base de toda a organização social, os pecados das famílias resultam, em grande parte, da falta de preparação para o Matrimónio, as famílias atuais não se encontram unidas na mesma comunhão de afetos e sentimentos… e no mesmo sermão o Pe. Brás dá duas soluções: ter a Sagrada Família de Nazaré como exemplo vivo das famílias cristãs; e inscrever as famílias na Liga da regeneração familiar. Isto em 1936. Lembro que as Equipas de Nossa Senhora só se começam a difundir em 1939 (três anos depois) e lembro que o Papa Francisco, em 2021, tendo a mesma preocupação que o Pe. Brás na falta de preparação para o Matrimónio, propôs, para toda a Igreja, “Itinerários Catecumenais para a Vida Matrimonial”. Diretrizes pastorais para as Igrejas particulares. Vejam o quão antiga é a problemática da família, mas tão atual estava no seu tempo o Pe. Brás.

Os seus encontros com a realidade das raparigas da Guarda, criadas e prostitutas, no dia semanal de folga do Pe. Brás, foi o mote de tudo o que temos hoje da Obra Blasiana: a instituição da Festa da Sagrada Família, o CCF – Centro de Cooperação Familiar, o MLC – Movimento por um Lar Cristão, o ISCF – Instituto Secular das Cooperadoras da Família e o Jornal da Família… tudo para santificar as famílias.

A sua linha de pensamento e ação (“ver”, “julgar” e “agir” que abordámos no artigo do passado mês) delineia-se assim: no centro, a criada de servir: com ela a família de origem, a família empregadora e a família que poderá vir a constituir. Sempre com esta ideia mestra de que a família Cristã precisa de ser defendida e promovida porque são as células fundamentais da sociedade e da Igreja. O MLC nasce para acolher as famílias e transformá-las em escolas de fé, uma verdadeira comunidade humana e a formação dos seus membros. A Festa da Sagrada Família, celebrada em todos as casas da Obra, constituía de quatro partes, ainda hoje atuais: tempo de oração, tempo de formação, tempo de diversão e tempo de refeição. É, sobretudo, a partir de 1959 que estes encontros se começam a promover em todo o país, como ainda hoje os celebramos (a importância do encontro, da presença).

Para chegar ainda mais longe, o Pe. Brás funda, ao mesmo tempo, o Jornal da Família, com objetivos concretos e ainda atuais: estabelecer a ligação entre o Instituto e as famílias das Obra, para instrução e doutrinação das famílias e para propaganda da Cruzada de amor e reparação a bem da Família.

Porquê o investimento nas Famílias? Porque, segundo o Pe. Brás, são as famílias que têm de ser apóstolas das famílias. E como é que podem ser apóstolas? Também responde o Pe. Brás: com o seu exemplo, com a sua oração, com a sua ação.

Ao recordar tudo isto, não queremos fazer um regresso ao passado. Já vimos que os problemas que o Pe. Brás encontrou no seu tempo continuam presentes no nosso tempo. O que foi novidade no Concílio em chamar a Família – Igreja doméstica – já o pressentia e fazia viver o Pe. Brás. Basta ler “A Alegria do Amor”, do Papa Francisco, e temos espelhada a preocupação pela família, tomamos consciência da fragilidade da família e o convite a investir na família, usando os três verbos do Papa: Acompanhar, discernir, integrar. Ainda na mesma Exortação Apostólica, o Papa usa o mesmíssimo método do Pe. Brás: “Ver”, “julgar” e “agir”: no capítulo 2 percebemos os problemas atuais à volta da família; os capítulos seguintes; 3, 4 e 5, o “julgar” e os últimos capítulos os campos de ação, o “agir”, diante da realidade vista e julgada.

Frei Filipe Rodrigues
Assistente Espiritual do MLC – Movimento por um Lar Cristão
(O conteúdo deste artigo integrou uma formação desenvolvida para o MLC)

Artigo da edição de março de 2025 do Jornal da Família

Foto: Palestra do Pe. Brás – Elvas
Arquivo ISCF

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