O primeiro capítulo da ‘Amoris Laetitia’ propõe uma visão realista da família, enraizada na Sagrada Escritura e atenta às fragilidades humanas. A leitura foi sublinhada pelo padre António Jorge dos Santos Almeida, também conhecido por padre TóJó, numa entrevista ao podcast “Amoris Laetitia: 10 anos depois”, promovido pelo Jornal da Família e pelo Instituto Secular das Cooperadoras da Família.
Segundo o sacerdote, reitor do Seminário Interdiocesano de São José, em Gondomar, e secretário da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, o ponto de partida do Papa Francisco – ‘Olhar a família à luz da Bíblia’ – revela que esta é “da ordem das realidades criadas por Deus” e deve ser compreendida entre “o sonho do Criador e a contemplação que nós fazemos dela nas nossas próprias famílias concretas”.
O padre TóJó destacou que o texto bíblico não esconde os conflitos familiares, apresentando episódios de “sofrimento e sangue” que ajudam a evitar visões idealizadas. “A Sagrada Escritura não ignora a amarga realidade do sofrimento e da violência que dilaceram a comunhão familiar”, afirmou, sublinhando que estas narrativas permitem “ter uma visão realista e não idealizada da vida familiar”.
Para o sacerdote, este realismo é essencial para a ação pastoral. “Não precisamos de desprezar uma leitura real das situações vividas pelas famílias hoje”, disse, defendendo uma abordagem que una fé e realidade: “O que precisamos de fazer é ter a Bíblia numa das mãos e os factos familiares na outra mão”.
A entrevista sublinha também a presença de Deus nas situações imperfeitas. “A presença de Deus nas famílias não se limita a um ideal abstrato, mas manifesta-se na realidade concreta”, afirmou, descrevendo Deus como “um companheiro de viagem na vida dos que enfrentam crises ou tribulações”.
Essa proximidade divina inspira, segundo o padre TóJó, uma pastoral mais próxima e inclusiva. “Abandonar um idealismo que simplesmente exclua as pessoas” é uma das prioridades, acrescentando que a Igreja deve “sentir-se à vontade para habitar as periferias da dor e da fragilidade humana e familiar”. Para tal o padre TóJó admite que faltam “movimentos eclesiais visíveis, desenvergonhados, deixai-me dizer assim, e agentes pastorais formados para isso”.
O sacerdote defende ainda que a leitura bíblica convida a uma mudança de atitude na Igreja, afastando-se de modelos abstratos. A Bíblia deve ser vista “como uma espécie de mapa já percorrido por famílias”, e não como “um conjunto de teses abstratas”.
Ao abordar a realidade contemporânea, o padre TóJó sublinhou que não existe um único modelo familiar. “Não existe um modelo único e linear, mas uma história viva que inclui desde o ilusório até à amarga realidade da família”, afirmou, defendendo maior atenção às famílias em situação de fragilidade, pobreza ou exclusão.
Entre as pistas pastorais apontadas estão a promoção da ternura, a escuta das histórias familiares e o acompanhamento no discernimento. A pastoral, disse, deve deixar de ser “um tribunal de julgamento” para se tornar “um espaço de misericórdia e perdão”.
Para o sacerdote, este primeiro capítulo marca o tom de toda a exortação, ao privilegiar uma abordagem concreta: “Nota-se ali uma abordagem baseada no tal realismo bíblico, que impele a proximidade pastoral, em vez de se limitar a idealizações teóricas”.
Na reta final da entrevista, o padre TóJó resumiu a mensagem central numa frase: “A família é apresentada como uma escultura viva que reflete a comunhão da trindade e que, apesar de enfrentar um rasto de sofrimento e sangue, encontra na palavra de Deus uma companheira de viagem que a ajuda a interpretar a sua história e a viver a vocação da ternura”.
O podcast “Amoris Laetitia: 10 anos depois” – Episódio 2 já está disponível e pode ouvi-lo na integra aqui:
Cada novo episódio estreia a 19 de cada mês, até ao final do ano, fazendo memória do dia da publicação da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’ – 19 de março de 2016





