É um dia belo o Dia-do-Pai com vistas para Deus

“Salta à vista que celebrar o pai é reunir a família, pais e filhos, avôs e netos, e avivar o mistério da vida e do amor, da paz, do pão, do vinho e da alegria, pautas novas que tanta falta fazem ao nosso mundo indiferente, violento e salitrado, em que muitas vezes não se vê nenhum céu azul ou estrelado” (Comissão Episcopal do Laicado e Família)

É um dia belo o Dia-do-pai com vistas para Deus

A maioria de nós recebemos a vida no seio de uma família, de um pai e de uma mãe. Mas eles não são a origem. São mais, como se diz habitualmente, as origens. Através deles podemos conhecer a vida, mas a vida não provém deles. Provém da origem, que é Deus, Aquele-que-é-sem-princípio (S. Gregório de Nazianzo). Assim como o amor. Existe um amor no princípio de tudo, e este amor vem de mais longe do que todas as formas particulares do amor que conhecemos. É deste amor original que recebem consistência tanto o amor do homem e da mulher, como o amor do pai e do filho, do amigo e de outro amigo, e assim por diante, dentro da comunidade humana.

Assim, o amor que está em nós, ou em que estamos nós, o amor entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre amigos, entre nós, não provém nem de uns nem de outros. Nem sequer de si mesmo. O amor não é meu nem é teu. O amor não é nosso. O amor é dado. Claro. Se «quem ama nasceu de Deus» (1 João 4,7), não é nossa a patente do amor, e temos mesmo de ser extremamente cautelosos quando pretendemos ajuizar acerca do amor que há nos outros. É fácil perceber que os pais e os filhos são desiguais na ordem da carne. É uma evidência que os pais estão lá primeiro. E é outra vez evidente que o filho, que nasce, é novo e segundo, pois vem depois da geração do seu pai e da sua mãe. Não se pode esconder este movimento que conduz o homem desde o seu começo num pai e numa mãe até à honra que ele lhes dá, quando os deixa, para passar a ser, com aquele ou aquela que lhe é «correspondente» (kenegdô) (Génesis 2,18), um novo começo. Este saber é da ordem da carne, que se faz sempre lembrar, e não se deixa esquecer. Mas a ordem da carne não é vencedora, pois bem sabemos que todo o começo caminha para o fim. A origem não. Então, os pais e os filhos são desiguais na ordem da carne, e naquilo que daí decorre, mas são iguais na ordem do amor, que não envelhece, não perece, não desaparece. É mesmo uma insanidade perguntar que amor é maior: se o dos pais pelos filhos, se o dos filhos pelos pais, dado que todo o amor é novo, e é sempre novo, tão novo o dos pais como o dos filhos. O amor é a vida em si mesma, diferente da vida da carne, mas que habita a carne.

Mesmo aqueles que desconhecem a fonte do amor, é dela que o recebem. Neste sentido, em que a fé se une à razão, os filhos são um dom de Deus (Salmo 127,3). Quando nasce um bebé, é também Deus que está mais ali à nossa beira, à nossa mão: fica ali bem visível, da nossa parte, um grande ato de fé na vida e no mundo, acolhendo e imitando o primeiro ato de fé, da parte de Deus, ao criar e declarar a Bondade da humanidade e do mundo (Génesis 1). Nada, sobre a terra, fala mais de Deus do que o nascimento de uma criança e do amor que a envolve. É também o dizer do poeta indiano Rabindranath Tagore: «Cada criança vem ao mundo com uma mensagem: Deus ainda não está cansado dos homens», a que podemos juntar uma nota da escritora francesa Françoise Mallet-Joris: «O maior ato de fé é dar à luz um filho». Na verdade, «Gerar» não se pode reduzir à mera biologia, sendo antes da ordem da teologia: gerar é quase o «sacramento» visível da bênção originária, dada por Deus, e conservada através dos séculos, de geração em geração. Gerar é realizar o ato de esperança mais radical que se possa realizar. Seguramente nos atravessará um calafrio sempre que nos apercebemos que a humanidade transmite, de idade em idade, na linha do tempo, de pais para filhos, algo de eterno. Amor eterno, tão terrivelmente ameaçado de idade em idade!

Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! (Romanos 11,33). Ó abismo do amor de Deus! Caríssimos pais e mães, que bem entendeis estas verdades só aparentemente escondidas, mas sempre a abrir-nos os olhos e o coração, os filhos que gerais e que vedes nascer, são, antes de mais, vossos ou são de Deus? Dir-me-eis: este filho é nosso, fomos nós que o geramos, fui eu que o dei à luz, nasceu neste dia, tenho aqui a cédula de nascimento. E eu pergunto ainda: sim, mas porquê esse, e não outro? É aqui, amigos, que entra o para além da carne e do sangue, da química e da biologia, entenda-se, o para além de nós. É aqui, amigos, que entramos no limiar do mistério, na beleza incandescente do santuário, onde o fogo arde por dentro e não por fora. É aqui que paramos ajoelhados e comovidos à beira do inefável, e caímos nos braços da ternura de um amor maior, novo, paternal, maternal, que nenhuma pesquisa biológica ou química explicará jamais. Todo o nascimento traz consigo um imenso mistério. Sim, porquê este filho, e não outro? Porquê este, com esta maneira de ser, este boletim de saúde, este grau de inteligência, estas aptidões, esta sensibilidade própria? Sim, outra vez, porquê este filho, e não outro, com outra maneira de ser, outro boletim de saúde, outro grau de inteligência, outras aptidões? Fica patente e latente, evidente, que, para nascer um bebé, não basta gerá-lo e dá-lo à luz. Quando nasce um bebé, é também Deus que bate à nossa porta, é também Deus que entra em nossa casa, é também Deus que se senta à nossa mesa, é também Deus que nos visita. Há outra paternidade, a de Deus, por detrás da nossa vulgar paternidade, participação da verdadeira paternidade de Deus. Na verdade, «toda a paternidade, como todo o dom perfeito, vêm do Alto, descem do Pai das Luzes» (Tiago 1,17; cf. Efésios 3,15). Amor eterno, descido ao nosso mundo, verificado na nossa casa, na nossa família, na nossa carne!

Tudo isto vem a propósito do dia-do-pai, que celebramos agora no dia 19, dia de São José. Salta à vista que celebrar o pai é reunir a família, pais e filhos, avôs e netos, e avivar o mistério da vida e do amor, da paz, do pão, do vinho e da alegria, pautas novas que tanta falta fazem ao nosso mundo indiferente, violento e salitrado, em que muitas vezes não se vê nenhum céu azul ou estrelado. Precisa-se um olhar limpo que aviste também o mistério da presença de Deus, origem e fonte de toda a paternidade e que, com a sua providência, nos assiste e quer participar da vida e do amor que em nós deixou depositado. É um dia belo o dia-do-pai. Com os olhos do coração iluminados (cf. Efésios 1,18), não podemos deixar de entregar nas mãos de Deus tantos pais caídos nas guerras deste mundo e tantas famílias que não têm nem espaço nem tempo nem modo de celebrar tão belo dia. Que São José, esposo e pai, e Nossa Senhora das Portas Abertas, esposa e mãe, velem por nós, por todos os pais e por todas as famílias. Amém.

Comissão Episcopal do Laicado e Família
Mensagem para o Dia do Pai 2025 – 19 de março

Foto ilustrativa: Pixabay

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