Catequese? Para quê? Os meus colegas também não vão…”

Já lá vai o tempo em que todas as crianças frequentavam a catequese. Como recuperar esta prática numa sociedade secularizada? Uma tarefa que, segundo Jorge Cotovio, cabe a pais, avós e cristãos em geral.

Já lá vai o tempo em que todas as crianças frequentavam a catequese. Era o tempo dos avós (e bisavós) de hoje. Mas, entretanto, já nem todos os filhos dos avós de hoje frequentaram todos os anos da catequese. E mesmo aqueles que frequentaram, parte significativa deles, durante a juventude ou quando saiu de casa dos pais, deixou de “praticar”. Como diz o Evangelho, “a semente caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na…

A sociedade mudou, a força da Igreja diminuiu, a autoridade dos pais também, e outros valores “mais altos” sobrepuseram-se à religião e às suas práticas.

Porque a instituição familiar está, naturalmente, implicada neste panorama, estou ansioso por ver publicados os resultados do inquérito “A Família na sociedade contemporânea”, já apresentados sumariamente pelo Pe. Eduardo Duque no recente Congresso “Atravessados pelo Amor e pela Esperança”.

E fruto desta apresentação, já dá para ver que as “coisas do espírito” andam mesmo pelas ruas da amargura. Pelo menos, as rotinas associadas à Igreja católica, tais como a missa dominical, os batizados, os casamentos, o compromisso eclesial, a catequese. Devem “salvar-se”, por enquanto, as celebrações exequiais, porque a morte incomoda a todos e mete muito “respeito”. E não é invulgar um ateu, um agnóstico ou um não praticante, no ocaso da vida, ou perante uma morte anunciada (por exemplo, uma doença incurável), “converter-se” ou, pelo menos, estar mais aberto à religião.

Voltemos à catequese. Depois das “férias”, começam as aulas e as comunidades preparam o início da catequese. É ocasião de as famílias pensarem neste assunto. Caso não pensem logo no início de setembro, as muitas atividades “extracurriculares”, normalmente bastante sedutoras, facilmente preencherão os dias (e horas) da semana (algumas dessas atividades até já estarão assumidas antes das férias…). E como a catequese não é “essencial” para a maioria das famílias e das crianças/ adolescentes, ficará para trás, tal como ficará para trás a matrícula na disciplina de EMRC.

Ademais, nestas coisas (como em tantas outras), na maioria dos lares quem manda são… as crianças. Sim, os filhos! “Catequese? Para quê? Os meus colegas também não vão… “Aquilo é uma ‘seca’… “E depois falto a um treino de futebol?” (às tantas são 3 treinos por semanas + os jogos ao sábado ou domingo, a que não “podem” faltar, eles e os pais…).

Invertem-se as prioridades e depois “queixam-se” (queixamo-nos…).

Sim, sabemos que a Igreja não acompanhou a evolução dos tempos, nem terá estado atenta aos “sinais do Espírito”. Sim, sabemos que da hierarquia nem sempre têm vindo a público os melhores exemplos. Sim, sabemos que a sociedade se descristianizou. Mas… o que é feito das famílias cristãs do tempo dos avós de hoje? Os avós de hoje – às tantas também culpados pela (deficiente) educação cristã dada aos filhos – não têm uma palavra? Ou também perderam “autoridade” perante os filhos e os netos? Sei bem, por experiência própria, o que tenho feito para “garantir” – dentro dos limites ao meu alcance, claro, pois os filhos e netos “não nos pertencem” – o crescimento da fé dos meus netos, ainda novitos. Por exemplo, dar bom testemunho, rezarem comigo as orações tradicionais, falar-lhes de Jesus, reorganizar a vida para, uma vez ou outra, irem à missa comigo (mesmo sem perceberem nada do que lá é dito), etc., etc.

Não cruzemos, pois, os braços, conformando-nos com a secularização da sociedade. A par de uma maior aposta das paróquias na catequese – com um maior envolvimento dos párocos e outros responsáveis, um maior cuidado na formação dos catequistas, uma melhor sensibilização dos pais (e filhos) – é indispensável uma maior colaboração das famílias cristãs (pelo menos estas!), começando elas por matricular “os seus” na catequese, e depois sensibilizar outras famílias amigas e conhecidas para fazerem o mesmo. A par de tudo isto, todos nós – pais, avós, cristãos em geral – temos a “gravíssima” obrigação de fazer mais (e melhor) do que temos feito, procurando que a semente da fé seja alimentada desde cedo em muitos corações, em muitos lares.

Também foi isto – ou “sobretudo” isto – que o Pe. Joaquim Alves Brás fez e pediu para nós fazermos…

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de agosto/setembro de 2025 do Jornal da Família

Imagem ilustrativa gerada por IA

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