Adolescentes depressivos?

41% dos adolescentes tem sintomas depressivos, dizem os últimos dados vindos a público pela mão do programa ‘Mais contigo’, de prevenção do suicídio nas escolas. Jorge Cotovio reflete sobre estes números e questiona o papel da Igreja e da Família na educação das novas gerações.

Nos últimos tempos tem vindo a público notícias alarmantes sobre a geração mais nova, que nos devem fazer refletir. Uma delas referia que 41% dos adolescentes tem sintomas depressivos, com “tristeza permanente, baixa autoestima, perda de interesse e prazer ou pensamentos negativos”, muitos deles com comportamentos suicidários. E não pensemos que isto sucede principalmente nas famílias mais carenciadas ou inseridas em bairros problemáticos. Não caiamos nesta ilusão, caso contrário podemos ter surpresas desagradáveis.

A resposta política a este quadro deveras preocupante é apostar mais em programas de prevenção do suicídio ou em apoios acrescidos nas escolas. A resposta social é a ocupação dos tempos livres da malta nova, com um leque tão extenso de ofertas sedutoras, que deixa de haver tempo para brincar, para ler, para viver e conviver (e até para estudar). A resposta do mundo do consumo e do mercado é aliciar os jovens sempre com coisas novas para comprar e usar (e deitar fora), como roupa e o “meu querido telemóvel”. E qual a resposta da Igreja? Costuma ser a tradicional: catequese seguindo o modelo escolar (com cada vez menos catequistas bem preparados), com celebrações dirigidas para um público adulto, com ritos pouco compreensíveis para a malta nova e utilizando-se uma linguagem que nem a maioria dos adultos percebe bem (valerá a estes a sua fé para ouvir o que não entendem). As pouquíssimas crianças que sobrevivem à catequese de seis anos, lá entram nas etapas seguintes até ao Crisma e depois dizem adeus à Igreja, tais as seduções do mundo terreno. A par da catequese, mas sem a substituir, também temos o escutismo, com atividades mais consonantes com o estilo da rapaziada. É uma excelente oferta da Igreja, mas com a secularização da sociedade tudo o que cheira a religioso é desvalorizado.

Perante este panorama que nos devia (pre)ocupar profundamente – porque a geração nova é o futuro da sociedade e da Igreja – que fazemos nós, cristãos honestos, pais, mães, avós, Igreja hierárquica e não hierárquica? É certo que vai havendo, aqui e ali, novas experiências/ iniciativas aparentemente bem-sucedidas, a maioria das quais fruto de entusiasmos pontuais (jornadas, peregrinações, retiros, acampamentos, festivais, etc.) e não tanto de medidas/ações estruturais, que perdurem no tempo – como seria o desejável.

Mas a raiz do problema está a montante: reside na família. E na forma como os pais educam os filhos. Julgou-se (e continua a julgar-se) que quanto mais coisas se oferecerem aos filhos, mais mimos lhes dermos, mais os superprotegermos, e quanto menos os contrariarmos, os responsabilizarmos e os fizermos esforçar, mais felizes eles serão. Sim, aparentemente as crianças ficam satisfeitas e, com tanta mordomia diária, até aprendem facilmente a mandar, não só em casa, como também na escola (também ficámos a saber que somos dos países da Europa com mais indisciplina nas salas de aula!!!). Pelos vistos, esta ilusão de felicidade está a gerar muita amargura na adolescência (e por aí diante).

É óbvio que atitudes e comportamentos tão errados e desajustados só podem conduzir a resultados desastrosos como os que estamos a assistir.

Se assistirmos a tudo isto “comodamente sentados”, seguramente este quadro tenebroso não se alterará, antes pelo contrário. E irá atingir cada vez mais adolescentes (e crianças, e jovens), quem sabe, os nossos filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, amigos. Urge, pois, “levantarmo-nos” e agir, assumindo cada um de nós – pais, avós, educadores – a nossa função com coragem e ousadia e fé, sabendo, de antemão, que esta ação suscitará, nas crianças e nos adolescentes, reações impulsivas incómodas, tais como birras, amuos, choros, chantagens, etc., que exigirão dos adultos assertividade e muita paciência. E amor. Sim, tudo isto só resultará se os nossos filhos, netos, alunos se sentirem estimados, valorizados, “amados” por nós. E para isto, é necessário os pais darem tempo aos filhos, passearem e brincarem com eles, sobretudo quando são pequenose os consideram uns ídolos. E para isto, é necessário os pais usarem menos o telemóvel ou o computador ou o tablet, moderarem o trabalho profissional e os seus hobbies, darem exemplo de verdade, de honestidade, de responsabilidade.

Se tudo isto for banhadopela espiritualidade, pela intimidade com Deus – que nos ajuda a sermos perseverantes, pacientes, amorosos – certamente teremos resultados bem diferentes.

Por isso mesmo, o Pe. Alves Brás, há sessenta e tal anos, perscrutando os “sinais dos tempos”, pedia insistentemente para se “cristianizar”/ evangelizar as famílias.

Hoje, este (insistente) apelo tem ainda mais pertinência. Cuidemos, pois, dos nossos gestos e das nossas atitudes. E das nossas famílias.

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de novembro de 2025 do Jornal da Família

Foto: Pexels

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Pessoas que vivem com demência

Estantes que abanam, memórias que caem, emoções que permanecem. Foi esta simples metáfora que marcou Juan Ambrosio num encontro dedicado ao tema da demência. Viver com demência é perder memórias, sim, mas é, acima de tudo, continuar a ser pessoa. E, nesse território frágil, o carinho, a presença e a ternura deixam marcas que a doença não apaga.

Ler Mais >>

O elogio milagroso

“Um elogio justo e honesto” pode ser milagroso. A convicção é da professora Goretti Valente, que em época de exames convida a redescobrir o poder de dizer “Tu podes! Tu consegues!”, para levantar ânimos, fortalecer relações e transformar ambientes.

Ler Mais >>

Família é “terreno fértil” para uma cultura do cuidado

O Vaticano publicou o documento ‘A ecologia integral na vida da família’, reafirmando que “os valores que crescem na família são o terreno fértil de onde brota a vida da sociedade”. A nova publicação, fruto do trabalho conjunto de dois dicastérios, quer ajudar as famílias a “viver melhor o cuidado da Criação e de cada pessoa”.

Ler Mais >>

Inteligência artificial e educação – Que pensar? Que fazer?

A inteligência artificial (IA) entrou na escola com as suas potencialidades, mas também com riscos que não podemos ignorar. Entre o artificial e o natural, torna se essencial refletir sobre o lugar desta tecnologia na educação. E, sobretudo, recordar que nenhuma inovação pode substituir a relação humana que sustenta o ato de ensinar e aprender. A reflexão é do professor Carlos Campos.

Ler Mais >>