Inteligência Artificial e trabalho

A Inteligência Artificial traz novos desafios ao mundo do trabalho. Entre os benefícios e os riscos, Furtado Fernandes reflete sobra a questão de uma adequada regulação.

É consensual que o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) comporta, em vários domínios, benefícios, mas, também, riscos.

Trata-se de um tema de grande complexidade que, para além de considerações de ordem geral, importa que seja analisado nas suas várias dimensões. Escolhemos, para abordar neste artigo, os impactos previsíveis da IA no mundo do trabalho e, nessa conformidade, a necessidade da sua adequada regulação.

1. Direito ao trabalho

“O trabalho é um bem para todos, que deve estar disponível para todos aqueles que são capazes de trabalhar. O pleno emprego é, portanto, um objetivo obrigatório para todo o ordenamento económico orientado para a justiça e para o bem comum. Uma sociedade em que o direito ao trabalho seja esvaecido ou sistematicamente negado e no qual as medidas de política económica não consintam aos trabalhadores alcançar níveis satisfatórios de emprego não pode conseguir nem a sua legitimação ética nem a paz social” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja).

2. Impactos previsíveis de uma IA desregulada

São várias as análises que, sobre esta matéria, têm sido produzidas. Escolhemos, sem a pretensão de sermos exaustivos, duas:

  • Redução muito substancial da carga total de trabalho humano, por virtude de um aumento exponencial da produtividade

Face a este cenário, Mariano Sigman e Santiago Bilinkis, em ARTIFICIAL, A nova inteligência e a fronteira do humano, colocam várias hipóteses para lidar com ele. “Uns poucos trabalham e outros vivem do rendimento universal? Trabalham todos, mas os dias de trabalho são mais curtos? Reduzimos a semana laboral a quatro dias ou menos? Antecipamos a reforma para os trinta anos? Ou prolongamos a adolescência e a formação até aos quarenta anos?”. Como se compreende, face a este quadro, havendo alternativas plausíveis outras são, simplesmente, delirantes;

  • Aumento muito significativo da volatilidade do mercado de trabalho

Segundo Yuval Noah Harari, em NEXUS, História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial,o nosso grande problema não será a inexistência de emprego, mas sim requalificarmo-nos e adaptarmo-nos a um quadro laboral em mudança constante. As dificuldades financeiras são bem prováveis: quem apoiará os desempregados durante a fase de transição, até que tenham adquirido novas competências? Podemos contar igualmente com problemas do foro psicológico, porque mudanças de atividade e reaprendizagem trazem ansiedade. Mesmo no caso de alguém com recursos financeiros e força mental que lhe permitam não temer a mudança, a nova situação tão-pouco será definitiva: em épocas vindouras, desaparecerão empregos e outros surgirão, mas também esses depressa mudarão e desaparecerão”.

Evidentemente que ninguém pode esperar, nos tempos que atravessamos, o chamado “emprego à vida”. Adquirir novas competências é, indiscutivelmente, benéfico, conquanto se respeitem ritmos compatíveis com uma saudável gestão do stress. As pessoas não são máquinas!

3. Regular a IA

A resposta para os problemas suscitados, e muitos outros decorrentes do tratamento deste tema, impõe regular a IA.

No que concerne à área do trabalho, revela-se indispensável compulsar o que é dito pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e pelo Dicastério para a Cultura e a Educação, em DESAFIOS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:

“A IA está a eliminar a necessidade de algumas atividades anteriormente realizadas por seres humanos. Se for utilizada para substituir os trabalhadores humanos em vez de os acompanhar, existe o risco substancial de uma vantagem desproporcionada para alguns à custa do empobrecimento de muitos. Além disso, à medida que a IA se torna mais poderosa, existe também o perigo associado de o trabalho perder o seu valor no sistema económico. Esta é a consequência lógica do paradigma tecnocrático: o mundo de uma humanidade escravizada pela eficiência, em que, em última análise, o custo dessa humanidade tem de ser reduzido. Em vez disso, as vidas humanas são preciosas em si mesmas, para além do seu retorno económico”.

Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de novembro de 2025 do Jornal da Família

Foto: Pexels

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