O Interior não pode ficar silenciado e o Estado deve cumprir a Constituição

Comunicado da AIC sobre a ameaça do fim da distribuição de jornais por vários concelhos do interior do país.

A Associação de Imprensa de Inspiração Cristã (AIC) manifesta a sua indignação absoluta perante a possibilidade do fim da distribuição de jornais em vários distritos do Interior de Portugal por parte da única operadora que assegura esse serviço, a VASP. Esta situação representa um atentado direto ao direito fundamental dos cidadãos à informação, claramente consagrado no Artigo 37.º da Constituição da República Portuguesa, que estabelece a Liberdade de Expressão e Informação e diz claramente que “todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações” e que “o exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura”.

A desigualdade no acesso à informação é incompatível com o regime democrático e representa um retrocesso civilizacional que não pode ser tolerado.

É urgente sublinhar, com toda a clareza, que sem informação não há cidadania plena e sem cidadania plena não há democracia real.

O abandono informativo das populações do Interior constitui uma forma de discriminação territorial que agrava o isolamento, mina a coesão nacional e ameaça o próprio funcionamento das instituições democráticas.

Perante esta situação que, no entender da AIC, é gravíssima, exige-se a intervenção imediata do Estado português.

É fundamental impedir o fim da distribuição de jornais em todos os concelhos dos distritos do Interior, sem exceção, pois, para muitos cidadãos, o jornal diário ainda é a ligação que mantêm com o resto do mundo; 

A AIC propõe, ainda, a criação de um modelo nacional de distribuição da imprensa que assegure o direito constitucional à informação, independentemente da rentabilidade económica das rotas, assumindo este desiderato como utilidade pública, que poderia ser alargada aos jornais regionais, atualmente distribuídos, com muitas falhas, pelos CTT;

A AIC lembra ainda que o apoio público à distribuição de imprensa em todos os concelhos do país está contemplado no Plano de Ação para a Comunicação Social, tendo o anterior ministro da tutela do atual Governo chegado a anunciar a realização de um concurso público para assegurar este serviço, reputado então como vital para a coesão territorial. Estranhamente, nada mais se ouviu falar sobre o tema, pelo que se exige explicações públicas sobre este processo.

Pela nossa parte, não aceitaremos que o Interior seja condenado ao silêncio. Não aceitaremos que os portugueses sejam divididos entre os que têm acesso à informação e os que dela são privados. E não aceitaremos que a Constituição seja reduzida a mera declaração simbólica quando está em causa a dignidade das pessoas e a verdade da democracia.

Como associação inspirada pelos valores cristãos da justiça, da verdade e da defesa do bem comum, reafirmamos que o cumprimento da Constituição não deve ser negociável consoante os interesses do momento e o estatuto dos interessados.

Cabe ao Estado cumprir a Constituição sempre e não parcialmente nem apenas quando convém, mas sempre e para todos.

A Direção da AIC

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Pessoas que vivem com demência

Estantes que abanam, memórias que caem, emoções que permanecem. Foi esta simples metáfora que marcou Juan Ambrosio num encontro dedicado ao tema da demência. Viver com demência é perder memórias, sim, mas é, acima de tudo, continuar a ser pessoa. E, nesse território frágil, o carinho, a presença e a ternura deixam marcas que a doença não apaga.

Ler Mais >>

O elogio milagroso

“Um elogio justo e honesto” pode ser milagroso. A convicção é da professora Goretti Valente, que em época de exames convida a redescobrir o poder de dizer “Tu podes! Tu consegues!”, para levantar ânimos, fortalecer relações e transformar ambientes.

Ler Mais >>

Família é “terreno fértil” para uma cultura do cuidado

O Vaticano publicou o documento ‘A ecologia integral na vida da família’, reafirmando que “os valores que crescem na família são o terreno fértil de onde brota a vida da sociedade”. A nova publicação, fruto do trabalho conjunto de dois dicastérios, quer ajudar as famílias a “viver melhor o cuidado da Criação e de cada pessoa”.

Ler Mais >>

Inteligência artificial e educação – Que pensar? Que fazer?

A inteligência artificial (IA) entrou na escola com as suas potencialidades, mas também com riscos que não podemos ignorar. Entre o artificial e o natural, torna se essencial refletir sobre o lugar desta tecnologia na educação. E, sobretudo, recordar que nenhuma inovação pode substituir a relação humana que sustenta o ato de ensinar e aprender. A reflexão é do professor Carlos Campos.

Ler Mais >>