“A paz esteja com todos vós!
Caríssimos irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação de Cristo Ressuscitado, o Bom Pastor, que deu a vida pelo rebanho de Deus. Também eu gostaria que esta saudação de paz entrasse no vosso coração, chegasse às vossas famílias, a todas as pessoas, onde quer que se encontrem, a todos os povos, a toda a terra. A paz esteja convosco!
Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente”
As palavras com que começo esta minha partilha convosco foram retiradas da primeira bênção Urbi et Orbi do Papa Leão XIV. Quando na tarde desse dia 8 de maio o vimos aparecer pela primeira vez como Papa, foram essas as primeiras palavras que lhe escutámos. Nelas, julgo podemos dizer já hoje, encontramos um sinal significativo, do modo como assume o seu pontificado.
Na verdade, a maneira como foram ditas e apresentadas, permite-nos perceber que não estamos apenas perante uma saudação formal, que não se trata apenas de um modo de introduzir umas palavras que, por serem as primeiras de um Papa, certamente têm um peso muito especial. A proclamação «a paz esteja convosco!», apresentada da maneira como foi, encerra em si mesma todo um programa de ação. Até porque essa paz que se evoca e se oferece, é a paz de Cristo Ressuscitado, que o Papa Leão XIV carateriza nessa mesma bênção como sendo uma paz desarmada e desarmante.
Recorro a estas palavras porque elas são de novo protagonistas na mensagem do Papa Leão para o dia 1 de janeiro de 2026, Dia Mundial da Paz, e que tem como título «A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante»
Quando ainda estamos em ambiente celebrativo do Natal e no contexto de um novo ano que desponta, julgo serem palavras muito certeiras e apropriadas. A celebração do nascimento do Menino, a quem também chamamos príncipe de paz, não pode deixar de comprometer-nos com a construção dessa mesma paz capaz de realizar mudanças significativas em todos aqueles que se disponham a acolhê-la. O acolhimento, testemunho e vivência dessa paz tem mesmo de ser uma das notas características das comunidades cristãs.
Uma paz desarmada, porque não se arma para se alcançar ou para se garantir, como ultimamente temos visto tantas vezes e em tantas situações. Para alcançar as condições ideais para a paz, dizem alguns, é necessário incentivar os combates de modo a trazer os outros à mesa das negociações de paz; para garantir a defesa e a paz nos nossos territórios, dizem os mesmos, é necessário apostar na defesa armada, pois só ela parece ser verdadeira garantia da paz. Não! A paz do Menino não é esta! Não é uma estratégia, não é uma defesa, nem sequer uma simples meta a alcançar. Ela reveste uma atitude, gera um estado, provoca uma maneira de ser e uma dinâmica de vida. Não é uma simples realidade externa que devamos procurar e alcançar, mas uma realidade interna, a partir da qual podemos viver. É também isso que este Menino nos vem revelar
E, por isso, esta paz é também desarmante. «Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho» refere-se na mensagem, afirmando também que talvez seja justamente o pensamento nos filhos, nas crianças e naqueles que são frágeis como elas, que mais impacto de conversão pode ter nos nossos corações. Quando a paz é vivida não apenas como meta a alcançar, mas como princípio a partir do qual se vive, então ela pode ser verdadeiramente desarmante, porque nos transforma o coração.
As leituras que escutamos por estes dias falam-nos de um cântico que proclama a paz na terra, anunciando com ele a presença deste Deus Menino no qual toda a humanidade se pode descobrir amada e cuidada.
Nestas celebrações, unamos a nossa voz a esse canto e a partir do fundo do coração, um coração pacificado, digamos uns aos outros: a paz esteja contigo! Seja esse o nosso voto de Natal, Seja esse também o nosso propósito para 2026: um ano cheio de paz. Uma paz desarmada e desarmante.
Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de janeiro de 2026 do Jornal da Família
Foto: Vatican Media





