Precisamos de outra lógica e de outros discursos

“Que mundo estamos a construir? Que humanidade queremos ser?”, pergunta Juan Ambrosio. As pistas para as respostas vai buscá-las à mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial do Doente.

O início deste ano de 2026 tem trazido notícias que não nos podem deixar indiferentes. Quando todos formulámos votos de paz e de harmonia para a humanidade e entre os povos, eis que aquilo a que assistimos, muitas vezes, parece ir em direção oposta. Aqueles conflitos de que todos falamos (e tantos outros de que não falamos) continuam bem ativos, alimentando horas sem fim de comentários, análises, e perspetivas de futuro, que verdadeiramente pouco contribuem para a solução dos mesmos, e que nos vão anestesiando, fazendo com que essas terríveis realidades cada vez nos interpelem menos.

E quando ao nível das relações internacionais ouvimos discursos que mais parecem estar baseados em lógicas comerciais, onde tudo parece poder comprar-se ou vender-se, de acordo com os interesses de cada um, sobretudo, e como sempre, dos mais fortes, então a interrogação adensa-se. Que mundo estamos a construir? Que humanidade queremos ser? Julgo sinceramente que, na solução dos problemas e desafios que enfrentamos, não podemos deixar de responder a estas perguntas.

Na mensagem do Papa Leão XIV para o XXXIV Dia Mundial do Doente, a celebrar no dia 11 de fevereiro de 2026, encontro pistas preciosas que nos podem ajudar a ensaiar essas respostas urgentes e necessárias. Diz o Papa:

Vivemos imersos na cultura do efémero, do imediato, da pressa, bem como do descarte e da indiferença, que impede de nos aproximarmos e pararmos no caminho para olhar as necessidades e os sofrimentos à nossa volta. A parábola relata que o samaritano, ao ver o ferido, não “passou ao largo”, mas teve para ele um olhar aberto e atento, o olhar de Jesus, que o levou a uma proximidade humana e solidária. O samaritano «parou, ofereceu-lhe proximidade, curou-o com as próprias mãos, pôs também dinheiro do seu bolso e ocupou-se dele. Sobretudo […] deu-lhe o seu tempo». Jesus não ensina quem é o próximo, mas como ser próximo, ou seja, como nos tornarmos nós mesmos próximos. A este respeito, podemos afirmar, com Santo Agostinho, que o Senhor não quis ensinar quem era o próximo daquele homem, mas a quem ele devia tornar-se próximo. Na verdade, ninguém é próximo de outro enquanto não se aproxima voluntariamente dele. Por isso, fez-se próximo aquele que teve misericórdia.

Na verdade, não precisamos muito de refletir acerca de quem é o próximo. Já existe uma abundante bibliografia a esse respeito, com a qual já se partilhou tanta coisa, tão interessante e desafiante. Claro que, em cada momento histórico, podemos sempre tirar coisas novas deste ‘precioso baú’, pelo que não podemos deixar de continuar a aprofundar a reflexão. Mas agora é essencialmente o tempo de nos fazermos próximos uns dos outros, especialmente daqueles que mais precisam dessa proximidade. Como ser próximo? Como fazer-nos próximos? Esta é outra maneira de formular as interrogações anteriormente referidas.

Do texto citado destaco alguns elementos que me parecem essenciais: um olhar aberto e atento, que leve a uma proximidade humana e solidária; um não passar ao largo das situações concretas, porque a vida humana importa e não pode ser ignorada; um compromisso traduzido na partilha de tempo e de bens, traduzido também na partilha da vida com a intenção de ajudar a curar.

E a Mensagem torna-se ainda mais precisa e clara ao recordar-nos que «o amor não é passivo, mas vai ao encontro do outro; ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar.»

O que é dito no contexto da celebração do Dia Mundial do Doente, parece-me poder ser dito, também, com toda a propriedade, acerca do momento histórico que estamos a viver. Na relação entre as nações, na procura das melhores soluções para os conflitos, os discursos e as ações não podem ser concretização da lógica do mais forte. Também a este nível é necessário recorrer a outra lógica, aquela que está bem presente no Evangelho, aquela que nos convoca a fazer de outra maneira, aquela que nos leva a fazer-nos próximos, para juntos, procurarmos o melhor bem possível para todos.

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição e fevereiro de 2026 do Jornal da Família

Ilustração: O bom Samaritano (Ilustração gerada por IA)

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