Em vez de um professor real, os alunos poderão ter aulas diante de um ecrã de grandes dimensões, onde um professor virtual explicará claramente a matéria prevista nas “aprendizagens essenciais” definidas pelo Ministério da Educação. O professor virtual tratará os alunos pelo nome, dialogará com eles em tempo real e o sistema registará o seu desempenho durante a aula. Esta tecnologia já existe – chama-se “inteligência artificial generativa”, isto é, capaz de gerar conteúdos especificados pelo utilizador (o programa, as perguntas dos alunos) a partir do acesso a toda uma série de fontes de informação (manuais, imagens, esquemas, vídeos, estudos, etc.). Tal como todos os avanços tecnológicos, a Inteligência Artificial (IA) tem um lado bom e um lado mau. Se quisermos o lado bom, teremos de aprender a evitar o lado mau. Esta é a primeira reflexão indispensável. A verdade é que os nossos telemóveis e computadores já nos mostram “vídeos” ou “notícias” gerados por IA e ainda não aprendemos a lidar com eles. Nem nos apercebemos que nem são vídeos reais (realidade captada por uma câmara), nem notícias (facto narrado por repórter profissional). E se não sabemos distinguir entre o real e o virtual, mais difícil é distinguir o verdadeiro do falso.
Segunda reflexão: um professor virtual nunca atingirá a capacidade do professor real para conhecer cada um dos seus alunos e ajudá-los, mesmo em tarefas “extracurriculares”, mas importantes para o seu bem-estar, o seu divertimento e, sobretudo, para a sua formação humana e cidadã. Para fazer isto, é preciso: (i) estar disponível, (ii) ter empatia e (iii) gostar de ensinar – coisas que não se fazem por programação. A IA tem limites e nunca substituirá o professor. Em rigor, o professor virtual nem sequer deve ser referido como professor – devemos inventar outra designação. Chamar “professor” a um robô IA é tão ridículo quanto chamar-lhe “vizinho” ao elevador do prédio. As máquinas não têm empatia – apenas funcionam. A IA é uma tecnologia avançada e em avanço, mas não passa de uma máquina. Na IA, o A (artificial) é mais importante que o I (inteligência). A IA é como uma planta de plástico.
Terceira reflexão: a IA permite esclarecer dúvidas e obter respostas concretas e desenvolvidas, em apenas alguns segundos. Qualquer pessoa já pode usar gratuitamente parte dessa funcionalidade escrevendo ou ditando diretamente a sua pergunta diante do telemóvel ou computador. Mas também permite que os alunos façam batota e peçam à IA que faça o trabalho de casa: “preciso de um texto sobre Fernando Pessoa, com cinco páginas A4, em corpo 12 e espaçamento simples, baseado no programa de Português do 12.º ano”. Isto já acontece, todos os dias. A IA facilita a batota e o plágio. Mas temos de condenar? A calculadora também era batota, evitava ter de cantar (literalmente) a tabuada para saber de cor até ao 9×9=81. E hoje, todos temos uma no telemóvel ou até no relógio… Os professores aprenderam a lidar com a IA. Se o aluno aprender a fazer as perguntas certas ao programa de IA e se depois ler o texto para poder fazer algumas alterações para “disfarçar” a sua origem, pode ter aprendido alguma coisa. Memorizou o suficiente para poder falar sobre o tema. Perdeu a oportunidade de aprender a pesquisar, a agregar informação e sintetizá-la num texto original, mas talvez consiga superar uma prova oral ou uma apresentação de improviso (sem estar a ler). Não se perdeu tudo…
Quarta reflexão: a IA depende da internet, e nem todas as famílias têm a mesma facilidade de acesso, o que significa que há mais uma desigualdade para compensar.
Quinta reflexão: a IA agravou perigos como a violação de privacidade (acesso e uso de dados reservados), ofensa ao bom nome de pessoas ou instituições, violação de propriedade (violação de direitos de autor), a desinformação e manipulação (difusão de dados falseados, tendenciosos, publicitários, comerciais), a difusão de dados errados, confusão linguística ou ortográfica (Portugal-Brasil, Reino Unido-EUA, Espanha-América Latina). Na educação, os riscos são maiores porque não basta evitar que os conteúdos estejam errados – é também necessário que não sejam inadequados. Por exemplo, para a idade do utilizador, para a sua cultura ou religião.
Sexta reflexão: a IA não gera resultados originais; quando muito, consegue resultados variados a partir de fontes não originais. A IA baseia-se em conhecimento existente, nada inventa, nada cria. A IA não pode dar o “salto criativo” do artista, nem a “descoberta do cientista”. Se o objetivo for a criatividade, a invenção ou a novidade genuína, a IA não serve.
Sétima reflexão: a IA tem um potencial de pesquisa superlativo, tal como a capacidade e rapidez de cálculo dos computadores. Mas tal como a calculadora não contribui para o “cálculo mental”, a IA não ensina a pesquisar. E todos os jovens precisam de aprender a pesquisar, porque isso é necessário ao desenvolvimento do espírito crítico. Para quê usar bibliotecas e ler livros, se a IA faz isso por nós? Uma pergunta que faz menos sentido do que parece. Para quê aprender a andar se o transporte, privado ou coletivo, faz isso por nós? E como pesquisamos se a internet falhar? A IA aumenta a dependência da internet. E essa dependência está a prejudicar gravemente os jovens (sobretudo) e as pessoas em geral. Sentados a olhar para um ecrã, os jovens (como os adultos) estão a desenvolver obesidade e a perder mobilidade. E estão também a perder sociabilidade real: comunicam muito à distância, mas têm dificuldade em lidar com conflitos frente-a-frente (na internet basta bloquear ou desligar) e, pior que isso, mas passeiam menos, brincam menos, não se tocam, nem namoram… Se o mau uso do telemóvel durante as aulas preocupa, o uso do telemóvel nos intervalos preocupa e entristece.
Oitava reflexão: a IA pode e provavelmente vai substituir professores, o que significa que a falta de professores pode evoluir para a redução das oportunidades de emprego para os professores. Muito mais sério é o problema da falta de alunos, que deriva do maior dos problemas da nossa sociedade: a baixa natalidade e a consequente não renovação da população. Sem professores – de carne, osso, alma e coração -, os alunos vão perder a empatia, a cumplicidade e a magia do encontro entre o prazer de ensinar e o prazer de aprender. Sem educação, sem professores e sem alunos, o mundo não avança, nem melhora.
Para terminar, é preciso não esquecer que, em matéria de inteligência, a natural e a artificial não são modalidades da mesma realidade. A artificial não substitui a natural, a menos que aceitemos deixar de usar esta última, deixar de ser pessoas livres e passar a ser apenas fazedores, escravos. O Papa Francisco exprimiu essa ideia com o seu peculiar bom humor, ao dizer que estava mais preocupado com a inteligência natural porque “há cada burro à solta!” (https://www.youtube.com/shorts/yHJ-nCE3PCw). Se quisermos que a IA seja uma ferramenta ao serviço da educação e do bem-estar, temos, por conseguinte, de a usar com inteligência natural.
Carlos Campos
Artigo da edição de junho de 2026 do Jornal da Família
Foto: Imagem gerada por IA via Copilot (por IM)





