“Durante muito tempo reforçámos a meta”, agora “reforçámos o acompanhamento”

No 4.º episódio do podcast “Amoris Laetitia – 10 anos depois” olhamos o Capítulo III, "O olhar fixo em Jesus: a vocação da família", com a ajuda do cónego Rui Pedro Trigo Carvalho.

O cónego Rui Pedro Trigo Carvalho considera que o capítulo III da ‘Amoris Laetitia’ – “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família” – é “uma espécie de pórtico” que introduz os grandes temas da exortação apostólica e recorda à Igreja que a vocação familiar é mais do que um simples projeto humano. “Num olhar crente, vemos não só um projeto de vida, mas também uma vocação, um chamamento de Deus”, afirma, sublinhando que a família é chamada a ser “um ícone da Santíssima Trindade” e a viver o amor “livre, total, fiel e fecundo” que Cristo tem pela Igreja.  

No entanto, o sacerdote alerta para o risco de apresentar o ideal familiar de forma tão elevada que se torne distante da realidade concreta das famílias. “Só Deus ama bem; nós somos todos aprendizes de amor”, recorda, defendendo que a proposta cristã deve ser apresentada como caminho e não como exigência imediata. “Não basta apresentar a meta. É preciso depois fazer caminho, saber caminhar ao lado”, refere.

É neste ponto que destaca a sensibilidade do Papa Francisco ao falar de “situações imperfeitas, situações difíceis, famílias feridas”, pedindo à Igreja que evite “uma idealização excessiva” que possa transformar o Evangelho da família numa utopia inalcançável.

Para o cónego Rui Pedro, a grande mudança trazida pela ‘Amoris Laetitia’ está precisamente na forma como a Igreja se aproxima das fragilidades. “Durante muito tempo, reforçámos a meta, apontámos a meta” e desde esta exortação, “reforçou-se muito esta dimensão da importância do acompanhamento”, afirma, lembrando os cinco verbos da ‘Evangelii Gaudium’ – primeirear, envolver, acompanhar, frutificar e festejar – como chave para uma pastoral mais próxima e realista. O acompanhamento, diz, exige proximidade, vínculo e paciência: “Às vezes caminhamos mais depressa, outras vezes mais devagar, outras vezes coxeamos. Mas o importante é estarmos a caminho.”

Dez anos depois da publicação da exortação, o sacerdote acredita que esta visão transformou a cultura pastoral, ajudando a olhar para as famílias não como realidades perfeitas ou imperfeitas, mas como histórias em processo. E resume o capítulo numa frase que, para si, condensa todo o espírito da ‘Amoris Laetitia’: “O caminho faz‑se andando, e sempre com o olhar fixo em Jesus.”

O podcast “Amoris Laetitia: 10 anos depois” – Episódio 4 já está disponível e pode ouvi-lo na integra aqui:

Cada novo episódio estreia a 19 de cada mês, até ao final do ano, fazendo memória do dia da publicação da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’ – 19 de março de 2016.

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Institutos Seculares: Celebrar 80 anos entre os desafios e a esperança

A preparação da celebração dos 80 anos da constituição apostólica ‘Provida Mater Ecclesia’ já está em marcha. Reunidos a 19 de setembro, em Coimbra, os Institutos Seculares portugueses lançaram o caminho rumo ao encontro nacional de 30 de janeiro de 2027, em Fátima, numa iniciativa que pretende reforçar a identidade e a visibilidade desta vocação na Igreja.

Ler Mais >>

Pastoral Familiar – “Tenho a impressão que já se fez mais”, afirma o padre José Alves

Dez anos após a publicação da ‘Amoris Laetitia’, o padre José Augusto Gonçalves Alves teme que a pastoral familiar tenha perdido o impulso que já teve. “Tenho a impressão que já se fez mais”, afirma o sacerdote vicentino e assistente espiritual do núcleo de Viseu do Movimento por um Lar Cristão. O padre José Alves defende uma pastoral “missionária “e “em saída”, em que a formação dos agentes da pastoral deve ir além da formação filosófica e teológica.

Ler Mais >>

“O amor nunca foi feito para ficar fechado entre duas pessoas”

Ana Bem e Hélder da Silva celebram este ano 25 anos de casamento e 34 de namoro. São eles que nos ajudam a refletir sobre o Capítulo V da ´Amoris Laetitia’ – O Amor que se torna fecundo. Por entre a vida familiar, a vida profissional e o serviço à Igreja e à comunidade, afirmam que “o amor nunca foi feito para ficar fechado entre duas pessoas” e “nunca fica mais pequeno quando é partilhado”.

Ler Mais >>

Retalhos de amor que dão vida

No Centro de Cooperação Familiar | Lar Betânia, em Fátima, as marchas dos Santos Populares não são apenas uma festa: são um encontro de memórias e afetos que continuam a dar vida aos dias. Este ano, sob o lema “Vidas com História – Retalhos de Amor”, os utentes desfilaram no espaço exterior da instituição levando consigo meses de dedicação, figurinos feitos em conjunto e, sobretudo, pedaços das suas próprias histórias. São fragmentos de coragem, perdas, fé e superação que emocionaram colaboradores e famílias.

Ler Mais >>

Férias com afetos

As férias passam depressa, mas aquilo que vivemos em família permanece. Neste verão, queremos mais do que destinos e fotografias: queremos pais e filhos juntos, presentes, atentos uns aos outros, a criar memórias que o tempo não apaga. Porque as melhores férias são sempre as que fortalecem o afeto que nos une.

Ler Mais >>