A Doutrina Social da Igreja (D.S.I.) enfatiza, como um dos seus princípios, a opção preferencial pelos pobres.
É, pelo que tivermos feito pelos pobres, que Jesus reconhecerá os seus eleitos. Os pobres estão-nos confiados, esta é uma responsabilidade indeclinável. O amor pelos pobres é incompatível com a obsessão pelas riquezas ou com o seu uso egoísta – “pois onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6, 21).
Este princípio implica que a Igreja, inspirada pelo exemplo de Jesus, direcione os seus esforços e atenção de forma especial para aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. Não se trata apenas de uma ação assistencialista, mas de uma atitude permanente que visa promover a dignidade, a justiça e a inclusão dos pobres na sociedade.
José Dias da Silva, Em Nome de Jesus Cristo, diz-nos que pobre é todo aquele:
- A quem não são reconhecidos os seus direitos fundamentais;
- A quem é recusada parte, a que tem direito, dos bens da humanidade;
- A quem é negada igualdade de oportunidades.
A pobreza, assim descrita, não pode ser considerada uma fatalidade, neste sentido a D.S.I. apresenta-nos dois outros princípios que, complementarmente, concorrem para enfrentar este flagelo:
- Destino Universal dos Bens
Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a regra da justiça, sem excluir nem privilegiar ninguém. Todo o homem deve ter a possibilidade de usufruir do bem-estar necessário para o seu pleno desenvolvimento;
- Solidariedade
O processo de aceleração da interdependência entre as pessoas e os povos deve ser acompanhado por um empenho ético-social na luta contra as desigualdades, a exploração, a opressão e a corrupção. À luz da fé, a solidariedade tende a superar-se a si própria, a assumir as dimensões especificamente cristãs da gratuitidade total, do perdão e da reconciliação.
À solidariedade opõe-se o individualismo que se traduz, usando as palavras do Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti, no “salve-se quem puder” que tem, como consequência, “todos contra todos”.
Como bem adverte o Papa Leão XIV, na Exortação Apostólica Eu Te Amei, sobre o amor para com os pobres:
“Os pobres não existem por acaso ou por um cego e amargo destino. Muito menos a pobreza é uma escolha para a maioria deles. No entanto, ainda há quem ouse afirmá-lo demonstrando cegueira e crueldade. (…). Não podemos dizer que a maioria dos pobres estão nessa situação porque não obtiveram «méritos», de acordo com a falsa visão de meritocracia segundo a qual parece que só têm mérito aqueles que tiveram sucesso na vida.
Também os cristãos em muitas ocasiões, se deixam contagiar por atitudes marcadas por ideologias mundanas ou por orientações políticas e económicas que levam a injustas generalizações e a conclusões enganadoras. (…). Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres”.
Nesta linha de orientação, é sintomático atentarmos na posição de Joseph E. Stiglitz, prémio nobel da economia, quando, no seu livro O Preço da Desigualdade, afirma que a satisfação do interesse individual requer, como pré-condição, o bem-estar coletivo.
De facto, só combatendo a desigualdade social, erradicando a pobreza, é possível promover o bem comum que, entre outros aspetos, se traduz:
- Igualdade de oportunidades que possibilite a mobilidade social ascendente – é inaceitável que quem nasce numa família com poucos recursos esteja condenado à pobreza;
- Para alcançar este desiderato têm de ser garantidos os direitos sociais: saúde, educação, habitação, acesso à cultura, entre outros.
Por último, importa relevar que a caridade, pressupondo a justiça social, vai para além da sua realização.
“O amor –caritas – será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. (…). Sempre haverá sofrimento a precisar de consolação e ajuda. Sempre haverá solidão. Existirão sempre situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo. (…). Este amor não oferece aos seres humanos apenas uma ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma” (Papa Bento XVI, na Encíclica Deus é Amor).
Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de março de 2026 do Jornal da Família
Foto: Pixabay





